terça-feira, 29 de maio de 2012

Poema para uma cabra





existe uma cabra dentro de nós

que voa, que salta,

que cabriola

e depois regressa ao recolhimento da  erva

à serenidade de monge budista

a olhar o precipício e o cume das montanhas

a cabra que cai em si



a cabra põe-se em bicos de pés

para ver ao longe

para que seja vista

cabra do desassossego

irrompe pelos barrancos

suspensa nas faldas da montanha

ágil é o raciocínio da cabra



sobre o manto de neve espreitam o infinito

manchas castanhas

erguem-se as puras hastes da alegria

de nariz no ar

contra o vento

ordenhas o nevoeiro

cuida a cabra da sobrevivência



progridem as cabras pelos penhascos

com ouvido de tísico e duros cascos

cabras góticas e  inventadas e secas

poemas nómadas

ruminando papel de jornal

no espírito do rebanho



crescem nas pastagens mais recônditas

as elegantes cabras

são sonhos embevecidos para punhais

os lobos são vultos que vigiam

nas escarpas

as palavras proscritas

e as cabras perdidas





Lisboa, 29 de Maio de 2012

Carlos Vieira


                                                               “A Cabra” de Picasso


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