sábado, 12 de maio de 2012

Fragmentos de desejo






pressinto

nos meus lábios

o teu corpo a levitar



perde-se na boca

a frase inacabada

do espanto



nasces de novo para mim

após amansar o vento



és uma memória que me morde



oiço o animal

oiço cada partícula

em que eras porcelana

e a frescura do afago



atravessas o sabor

da longa espera

que é a queda do fruto

na frágil verdura da erva



na tua nudez imaculada

ali se oculta  o apelo

se acende o perplexo aroma



incrédulo escorre o sumo

sobre a lâmina

num fulgor de silício



espeto até ao mais fundo

o gume do silêncio

até se soltar um grito

na alforria que te concedo

dentro de mim



dentro de nós

o desejo que adormece

é um punhal saciado



Lisboa, 12 de Maio de 2012

Carlos Vieira



                                        “Fragmentos de Sandra Berube” por Patrick Rochon




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