sábado, 29 de novembro de 2014

Poema de uma ave à chuva



Uma ave
arde 
devagar,
define
a árvore
entre
a névoa,
o canto
é agora
água
límpida
regato
a deflagrar
o espanto,
paira
uma miríade
fosforescente
de luzes
de vozes
reinventando
a lua e o luar,
palpitando
à flor da pele
amordaçada
os esquecidos
os timídos
e os sós,
e assim
lhe permitem
respirar
depois do medo,
das penas
e que se possa 
decifrar
a mensagem
implicíta
no tamborilar
da chuva,
a sua ternura
ingénua
minimal
e a insensatez
que alaga 
as ruas lá fora
e que cai 
batendo asas
dentro de nós.



Carlos Vieira

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Não há outro país...

Não há outro país, onde me sinta tão próximo da Guerra das Estrelas como na Holanda, cruzam-se pelos mesmos espaços contemporâneos ou de há vários séculos, gente dos mais diversos planetas e tribos, onde os mais sagrados e inconfessáveis interesses se vislumbram. Até as duas rodas de bicicletas, dão às cidades, a voluptuosidade características dos movimentos das naves. Sento-me numa esplanada a deglutir "poffertjes" e sinto-me revigorar, pronto para rumar a outra galáxia, apesar do primeiro ataque, em que vi estrelas, daquilo que no meu diagnóstico amador, pressinto ser "dor ciática", resultado de outras guerras e porque tudo se paga cá na Terra.

Haia, 26 de Novembro de 2014

Carlos Vieira

Mais um eterno reencontro ou retorno



O meu eterno retorno
é á praia de Scheveningen
a um céu azul claro 
para quem não sabe nadar
de perigosa inclinação
e nuvens de algodão desfeitas 
no mar do Norte 
hoje numa estranha quietude
no ouro do areal a perder de vista
onde sussurram
estas gaivotas breves 
solidão em branco e preto
de um ou outro casal 
que aqui vêem recuperar as forças 
depois do amor ou do desamar
sem fazerem ondas
vão ver-se junto ao mar 
quase morto
já agora experimentam 
a tempertura da água
enquanto recordo um dálmata
a brincar com um corvo
reafirmando as boas relações
entre espécies
atirando-nos areia
para os olhos
na praia de Schevenigen
onde morreu meu pai
com mais precisão
foi aqui que recebi a notícia
da sua morte
agora encontro-me sempre com ele
quando aqui volto
e a partir dessa memória
de dor atormentado
renovo a minha crença
na humanidade.

Scheveningen (Haia), 26 de Novembro de 2014

Carlos Vieira


terça-feira, 25 de novembro de 2014

Escrever friamente e em claro


a folha branca
a noite em branco
o tampo da mesa
em branco
na minha cabeça
uma branca
o meu mundo
coberto
de um manto de neve
do gelo da inacção
apenas as formigas negras
das letras avançam
em pequenos grupos
nos antigos trilhos
desafiam a inóspita superfície
atravessam esta gelada desolação
que de mim se apoderou
que nos conquista
e choramos agora sobre o leite
derramado
que nos invade
o delimitado campo
A4 da escrita

Lisboa, 25 de Novembro de 2014
Carlos Vieira

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Estratégia da aranha III



Por um fio
que nós tecemos
estamos presos
suspensos
sobre o abismo 
de um tempo
que lento
nos devora.

Lisboa, 23 de Novembro de 2014

Carlos Vieira

domingo, 23 de novembro de 2014

A estratégia da aranha II



De um recanto
abarco agora todo o aposento
teu corpo
que arde em lume brando
sobre o sofá
teu olhar liquído
e tuas mão lívidas
que aqueces
na chávena de chá
já vivi suspenso num abat-jour
a derramar a luz
sobre os teus pés
e na áurea melancólica
da tv ligada
de onde escorre uma ladainha
que tu não ouves
nem vês
já me debrucei
sobre o abismo
dos quadros dependurados
tão profundamente abstractos
na solidão dos teus porquês
já habitei por dentro
do preto e vermelho
alimentando-me
dos vagos mistérios 
que guardas num móvel chinês
já esperei pelas tuas mãos
naquele centro de mesa africano
e pelos teus lábios
a beijarem
a fruta fresca dos arrabaldes
e o poema pode ser a teia
que será uma luminosa compilação
dos teus pequenos gestos
domésticos.

Lisboa, 23 de Novembro de 2014
Carlos Vieira



Estratégia de aranha I






Entre mim e a rua
há duas ou três flores interiores
com quem nunca troquei palavra
uma delas é artificial
sem alma 
e está sempre nua
descobri há pouco tempo
não lhe sei o nome
de qualquer forma 
este é muito redutor
na lateral da grande janela
da sala
no exterior
como se fossem escorraçadas
mais algumas flores
a minha ousadia é lançar
o fio do olhar
que atravessa a rua
e do outro lado
outros jardins interiores
a mesma indiferença
e anonimato
a aranha furtiva
tece por dentro de mim
um poema de noite e de sol
onde alguém tropece.

Lisboa, 23 de Novembro de 2014
Carlos Vieira