sexta-feira, 26 de setembro de 2014

De tanto olhar o firmamento ganhei asas


Estarei velho
deixei de contar as estrelas
as mais distantes 
já não as enxergo
invejo-lhe a incansável
intensidade
não existem
estrelas decadentes
só buracos negros
abertos no espaço sideral
e constelações que assistem
impotentes
as exéquias das partidas
das ausências
ao silenciar da luz
estarei velho
tornou-se
mais difícil carregar
este memorial
este céu
para consumo interno
onde continuam
tantas estrelas
desaparecidas
e ao mesmo tempo
cuidar
das supernovas
da minha vida.
Lisboa, 26 de Setembro de 2014
Carlos Vieira

o beijo da vida


a vida é um sortilégio
na eternidade interrompida
pelo teu beijo

Lisboa, 26 de Setembro de 2014

Carlos Vieira


Jean-Leon Jerome "Pigmaleão e Galatea"


Henri Toulouse-Lautrec "O beijo na cama"


"O Beijo" Auguste Rodin


"O Beijo " Gustav Klimt



Man Ray "Rayograph Kiss"


"Dia de Aniversário" Marc Chagall


Constantin Brancusi "O Beijo"


"Os amantes" René Magritte


"O Beijo" Pablo Picasso


"Roy Lichtenstein "Kiss-V"


http://flavorwire.com/149349/the-10-best-art-kisses-of-all-time

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Poema do café da manhã



Peço uma italiana
e um bolo fofo de Belas
sou o único cliente do café
o primeiro talvez
vou dedilhando versos brancos
rimas desencontradas
e metáforas duras de roer
tento libertar-me  da rede tentacular
das palavras que gorjito
instintivamente
 depois
por um sistema de vasos comunicantes
vou alimentar o poema
da linfa das ideias e da ternura
quero fechar
com chave de ouro
deixar um ditirambo
e uns cêntimos de gorjeta.

Lisboa, 25 de Setembro de 2014

Carlos Vieira

Pequenas tempestades



Ontem Lisboa
era o caos
nas suas pequenas inundações
nesta impreparação
para as tempestades
e desvarios
neste lusa vivência
de carregar a dor
e a idade
no limite da paciência
ter de reinventar o amor
de não sabermos voar
e dos pássaros
só transportarmos
cantos e fragilidade.

Lisboa, 23 de Setembro de 2014-09-25
Carlos Vieira




terça-feira, 23 de setembro de 2014

Escrevinhar



Escrevo
até ficar a memória
em carne viva
até precisar
de uma transfusão
de sangue novo
e sol
depois renovo este ímpeto
de escrever
contra o muro da solidão
não me conformo
oiço outra vez
este eco ancestral
das noites de cristais
e de grilhetas
de forno na garganta
este cheiro a sal no porão
de escravos
e de estrelas na lapela
a levantarem-se do chão.

Lisboa, 24 de Setembro de 2014
Carlos Vieira

A garça e o carneiro caraculo



Registo
a partir desta janela
de manga de alpaca
na narrativa da várzea:
a garça altiva
que viaja no dorso
de um carneiro caraculo,
a metáfora subversiva
da pose de poeta
a recitar
a duas vozes
 poesia efémera
e leve
sem açúcar.

Lisboa, 24 de Setembro de 2014
Carlos Vieira



Norman Share Photography

domingo, 21 de setembro de 2014

Seu corpo teu fogo sem artifício


Foguetes
a estrelejar
e a iluminar
a nudez ávida
do teu corpo
no ardor
da urgência
ao longo
da húmida erva
cúmplice
que esconde
aquele amor
proibido
numa aldeia 
do interior

no espanto
do rosto dela
afogueado
nesta noite
de um amor
que os consome 
em lume brando
só do encontro
no seu olhar
toda terra treme
e há vulcões
prestes a entrar
em erupção
e eles ficarão
a descoberto

ai perto
a algazarra
dos garotos
na sua pueril
brincadeira
de ir apanhar
as canas
e ainda se ouve
o resfolegar
de uma cansada
concertina
está a acabar 
o arraial
não vão deixar
de dançar
de mão dadas
contra a lonjura
e o desconhecido

amansa
lentamente
o estertor
dos corpos
vão ver-se
de novo amanhã
haverá  
de novo a festa
vai estrelejar
dentro de si
ele irá
levar-te consigo
até às nuvens
ali vão estar
definitivamente
protegidos
de qualquer
indiscrição.

Lisboa, 21 de Setembro de 2014
Carlos Vieira



“Kissing” por Alex Grey