sábado, 12 de abril de 2014

Ponto morto

Sinto-me  o novo prisioneiro enclausurado neste tempo  perdi a senha que me levava por inteiro à madrugada limpa esqueci essa conjugação de palavras que nos tocam e nos libertam onde está a música rente à pele essa redescoberta dos sentidos eis-me aqui que atónito me confronto com a eleição da hipocrisia e do vazio será isso  que dizem que é a morte ou são apenas vestígios ou raízes. Lisboa, 12 de Abril de 2014 Carlos Vieira

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Terra de ninguém



Habita
esse local
ermo
é um sítio
frugal
um lugar
onde vive
de pé
essa gente
banal
apenas
com dois m2º
de terra
rural
um céu
de fundo azul
por cima
debaixo
a cama
é todo
o mundo.

Lisboa, 11 de Abril de 2014

Carlos Vieira

Memória olisiponense III



Façam o pino 
no Cais das Colunas
que abraçam no vazio 
restos da esteira de espuma
dos cacilheiros
vejam de pernas para o ar 
o país e o Terreiro do Paço
e o verdete de D. José 
"qual a pata direita do seu cavalo"
eis aqui estes abraços de pedra
este anódino rei
chamem o bobo da corte
e que nos divirta
debaixo do arco da vã glória
tudo escrupulosamente vigiado 
a partir das janelas dos ministérios
um imenso punhado 
de passadas e de presentes
vacuidades
podemos oferecer 
a qualquer pacato viajante
e endinheirado turista
ou cidadão 
nesta bela praça
a esconsa visão do universo
que nos venceu
como se nela coubesse 
o mundo inteiro
entrem meus caros senhores
neste país passarelle
este circo de vaidades.

Lisboa, 11 de Abril de 2014
Carlos Vieira

Memória olisiponense II



A manhã desperta 
sobre o dorso de mármore
branco sujo
do chafariz pombalino
a minha mão mínima 
da infância 
pousada sob o rebordo
húmido
e macio da pedra
depois de páginas
e páginas de Júlio Verne
e de um qualquer
jogo da apanhada
a outra mão roda
a torneira de cobre
pelos meus lábios
subo aos céus
por aquela corda
de água
que apenas 
de escutar-lhe 
o canto
me sacia esta sede
de criança.


Lisboa, 11 de Abril de 2014
Carlos Vieira

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Memória olisoponense I

Lembro-me do meu dia
se medir
pelo tempo que ía levar
o elevador da Bica a chegar
do Bairro Alto ao Cais do Sodré
e daquele bailado 
das mãos acentuando os vincos 
nos envelopes do futuro
do pregão do homem das cautelas
em contramão
com a sombra esquálida 
de um cão vadio 
de permeio o brilho metálico 
do papel couchée
e das palavras entrecortadas
no esgar electrónico 
da guilhotina
soube do cheiro a cola 
e à tinta fresca
nas resmas de estampados 
recém chegados da tipografia
da antecedência do papel 
dos presentes
e dos ausentes
lembro-me das mulheres 
com o tacão alto preso 
na calçada portuguesa
e daquelas de coração solto
e das sardinhas assadas
na tasca em frente
e da sua prata escamada
por mangas de alpaca
do baton vermelho 
a esborratar a burocracia
volto ao café Oríon 
no Calhariz 
com seu séquito de bancários 
preocupados 
com o fundo de caixa
e um olho 
nos sapatos de verniz
e a taxa de esforço 
e de câmbio
ou o crédito mal-parado
e os amarfanhados alfarrabistas
desconfiados num recôndito 
a olharem-nos da penumbra
por cima dos seus óculos redondos
de aros de tartaruga 
acariciando as lombadas de carneira
de olho nas primeiras edições
depois havia 
aquela gente dos jornais
pequenos corropios
em fila indiana ou aos magotes
pelas ruas estreitas e de vistas largas
tipógrafos de offset
atingidos por chumbo e de alma tingida 
gasta por várias edições
de pesadelos de muitas tiragens
e pouco dinheiro
no Largo Camões
perante os turistas
predominava a ousadia ácida 
dos pombos
tornava menos épica 
a poesia
mas lhe dava cheiro.

Lisboa, 10 de Abril de 2014


Carlos Vieira

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Vem muitas vezes...

Vem muitas vezes 
aqui ao cais
afugentar as gaivotas
pousadas 
a balançar 
o seu imaculado branco
neste mar morto
onde exala 
o cheiro fétido dos esgotos
assustadas 
da sua tempestade interior
e ele a precisar 
de recomeçar tudo outra vez.

Lisboa, 9 de Abril de 2014
Carlos Vieira

Observo...

Observo
o movimento tentacular
dos guindastes
e a monstruosa paciência
dos navios
os marinheiros e estivadores
são bonecos de corda
à volta de geringonças
e bulícios que me azucrinam
a cabeça de matiz
surrealista.

Lisboa, 9 de Abril de 2014
Carlos Vieira