domingo, 14 de outubro de 2012
sábado, 13 de outubro de 2012
A preparação física está a dar cabo de mim...
A preparação física está a dar
cabo de mim. Hoje levei a minha filha à ginástica, esperei por ela uma hora e meia,
os atletas das mais diversas modalidades passavam por mim, naquela pose de
deuses acabados de sair das nuvens ou esbaforidos, muito perto da eternidade,
serenos e elegantes como se a dimensão dos problemas da vida não lhe oferecesse
qualquer receio e se por caso paravam, era para fazerem um compasso de espera, se
concentrarem e definirem qual a linha de ataque mais favorável.
Eu quase deitado no sofá, pousava
o olhar de mãe em mãe, de pai em pai, procurando-lhe o calcanhar de Aquiles e
definindo-lhe o perfil deformado, liam os seus livros indiferentes à
desenvoltura do meu olhar, pouco consentâneo com a proeminência do meu abdómen e
preguiça do meu refastelamento, navegavam muito distantes e compenetradas, nesses
longínquas latitudes que as últimas gerações de iPads e smartphones permitiam,
à distância de um clique.
Depois olhei para a rua, de bicicleta
ou em corrida inúmeras pessoas faziam o seu jogging
matinal, de fim-de-semana, pouco a pouco fui ficando enjoado, o mundo era o
estádio universitário que andava às voltas, na minha cabeça.
Eu estava cansado, muito cansado,
as pessoas entraram para dentro de mim de ténis, faziam flexões, alongamentos, cambalhotas,
um suor frio escorria, abundantemente, pelo meu corpo, sempre tive este tipo de
excreções, muito à flor da pele.
Umas vinham para perder peso, outras
por causa do coração, outras para ganhar músculo, para manterem a forma,
ninguém queria morrer cedo, iriam vender cara a derrota, eu olhava perplexo para
aquela gente tão boa, tão sã, tão regurgitante de vida.
Procurei acompanhá-los e logo tropecei,
incapaz de compreender a gramática de todo aquele frenético movimento,
sobretudo, inepto para encontrar o sincronismo, entre a velocidade feérica do
estádio dos sonhos que na minha mente persigo e esta disponibilidade física e mental
dos indivíduos a que a vida não pede qualquer urgência.
Despertei do círculo fechado
desta reflexão, quando a voz suave da minha filha mais nova, me esclareceu
todas as dúvidas, imbuída de uma inabalável veemência, no que respeita à esforçada
grandeza, de alcançar ao ar livre, o peso pluma, a liberdade dos próximos
quarenta e cinco minutos. Esforço derradeiro, de forma a convencer os que me rodeiam,
de que tenho mais olhos que barriga.
- Vamos pai, hoje prometeste que
irias correr comigo!
Lisboa,13 de Outubro de 2012
Carlos Vieira
Dívida
A dívida aumenta.
A do país e a nossa.
Cada manhã sabemos
que se acumula a dívida.
A grama que pisamos
é dívida.
A casa é uma hipoteca
que a noite vai adiando.
E os juros na hora certa.
Ao fim do mês o emprego
é dívida que aumenta
com o sono. Os pesadelos.
E nós sempre mais pobres
vendemos por varejo ou menos,
o Sol, a lua, os planetas,
até os dias vincendos.
A dívida aumenta
por cálculo ou sem ele.
O acaso engendra
sua imagem no espelho
que ao reflectir é dívida.
A eternidade à venda
por dívida.
A roça da morte
em hasta pública
por dívida.
A hierarquia dos anjos
deixou o céu por dívida.
No despejo final:
Só ratos e formigas.
A grama que pisamos
é dívida.
A casa é uma hipoteca
que a noite vai adiando.
E os juros na hora certa.
Ao fim do mês o emprego
é dívida que aumenta
com o sono. Os pesadelos.
E nós sempre mais pobres
vendemos por varejo ou menos,
o Sol, a lua, os planetas,
até os dias vincendos.
A dívida aumenta
por cálculo ou sem ele.
O acaso engendra
sua imagem no espelho
que ao reflectir é dívida.
A eternidade à venda
por dívida.
A roça da morte
em hasta pública
por dívida.
A hierarquia dos anjos
deixou o céu por dívida.
No despejo final:
Só ratos e formigas.
CARLOS NEJAR
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Teu corpo meu barco imaterial
Quem sou eu?
Em que momento da tua luminosidade
me perdi?
Qual o teu lado mais negro?
Este frio que me transe
serão apenas teus olhos
que abandonam
uma parte de mim?
A tristeza que irradias
será a quietude onde te aguardo?
Tu me desconheces
e, no entanto, a tua dor
se adequa à minha ausência.
Atingimos os mais altos cumes
e temperaturas
que proporcionam a duração das distâncias
que acolhem a memória das partículas
do teu corpo
que se pode decompor em música.
E, se a velocidade da tua sombra se apodera
dos meus dedos desertos
como posso sobreviver
neste dilúvio da chuva e de cinza
que cai
ou a este momento de trevas?
Sobre a carne cálida e sequiosa
nos teus lábios entreabertos
deflagram improváveis realejos
murmurando inéditas partituras,
reencontramo-nos a caminho
do mar amniótico interior e ancestral
no deslumbramento do teu corpo
aceso na curva das ondas
onde podemos de novo escutar
um sussurro, uma azáfama de beijos
no regresso ao eco líquido e seminal.
Karlsruhe, 9 de Outubro de 2012
León Ferrari “Declaraciones de Scilingo, Nunca Más” 1995
domingo, 7 de outubro de 2012
Sonhos em 3D pela alameda
Filigranas de Outono, a bordejar
o céu cinzento desta Alameda, de um tempo de tubos de
escape.
Nuvens de folhas, em remoinho perseguem-no,
enquanto não o revestirem, não vão
descansar, enquanto não o cercarem
no beco, como a fome de uma pequena matilha de cães
abandonados.
Aceitaria fazer de morto ou
fingir de árvore derrubada, a história da intervenção dos bichos
mais adiante é que ainda lhe faz
cócegas.
De resto, aquela humidade da
terra que sente nas costas, pareceu-lhe o início de uma nova
vida ou talvez do crescimento das
asas, sentiu-se por isso, naquilo que deveria ser a sua queda,
mais perto do céu.
Sentou-se num daqueles bancos
clássico de tábuas de madeira pintadas de verde, a resistir ao
frio que anoitece nos seus pensamentos.
Divaga no xadrez de luzes dos
prédios em frente. Vai reconstituindo os afazeres e conflitos
domésticos, daqueles vizinhos também
eles de passagem, com tudo tão arrumado.
O bispo branco no seu movimento
traiçoeiro e oblíquo comeu o cavalo, enquanto uma família
numerosa prosseguia, no seu frugal
jantar.
Um casal de namorados que se preparava
para a inocência desastrada do primeiro beijo
encostado a um tronco de uma
amoreira, foi devorado pela máquina de lavar, da
marquise do 1.º andar, ali sobre
a minha direita.
O mundo está estranho em Outubro,
a Alameda está quase nua e quase morta, estranho
enigma é aquela nudez primordial.
Lá vamos, muito cegamente, a
caminho do cadafalso, do caos, de olhos vendados, tropeçamos
na desconhecida pureza da neve, confundimos
a alergia com o desabrochar das flores e
deixaremos de saber distinguir o
perfume e as cores da fruta madura.
Nós os citadinos passamos a
correr pela vida, porque estaremos sempre atrasados e quando
chegarmos ao destino, vamos
descobrir que já é Verão e desistir de todas as outras
estações.
De qualquer forma, o aumento do preço
dos bilhetes, não nos permite que nós tenhamos
outra dimensão nos sonho.
Lisboa, 7 de Outubro de 2012
Carlos Vieira
Um caso de electricidade estática
Pode considerar-se
um absurdo
este candeeiro
aceso no país
o dia inteiro.
O Sr. José
de tão confuso
perdeu um parafuso
por isso a lucidez
e o crédito.
De excesso de luz
e falta de café
ainda iria
como tantos outros
adormecer de pé.
O candeeiro
cansado
de tanto esperar
foi-se deitar
sem tirar os sapatos.
No outro dia de manhã
o Sr. José apagou-se
abraçado a um poste.
Nota: Foram encontrados estilhaços de lâmpadas incandescentes
debaixo dos lençóis.
Lisboa, 7 de Outubro de 2012
Carlos Vieira
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
HILOTAS
Hoje à tarde, andava pelo dicionário, como quem percorre as ruas de uma qualquer cidade desconhecida.
Gosto de ir de palavra em palavra, de conhecer-lhe os ângulos, os pormenores, a pátina das cores, a articulada sombra dos sorrisos e de música sonhada.
Depois de umas folhas, tropecei nesse remoto adjectivo, hilota, lembrei-me das conchas que apanhei numa longínqua e ignara praia do hem...
isfério sul, dos homens que transformam as pedras em casas e conhecem das nuvens e das aves apenas os sinais
Já tinham deixado, hirta, essa flor, essa palavra transida, ensimesmada, que se ergue nas paradas e nos exércitos, e que, em definitivo, molda o corpo dos jovens e dos mais velhos, preenchendo os hiatos das trincheiras.
Até que, finalmente, me deparei com os hilotas, de todos os países e tempos, que cada vez mais se iam concentrando na ancestral praça solar, praia, praça feita de sal e espuma, onde acorrem as ondas, as hordas dos vencedores das trevas e do medo.
Foi assim, que regressando neste Outono à praia de que são ignaros os bens falantes e os bens posicionados, a revi juncada do rumor de conchas, coalhada de ideias e do marulhar dos gritos dos cadáveres hirtos, dos nunca heróis.
Pressentia os hilotas cozidos à linha de água, de cabelos húmidos da maresia, observavam o movimento da linha do horizonte e certamente pescariam na distância o próximo futuro, o fruto maduro da liberdade que lhe permitirá, tomar o pulso de uma alegria perene, no percurso pelas palavras do coração onde hiberna o dicionário.
Lisboa, 5 de Outubro de 2012
Carlos Vieira
Já tinham deixado, hirta, essa flor, essa palavra transida, ensimesmada, que se ergue nas paradas e nos exércitos, e que, em definitivo, molda o corpo dos jovens e dos mais velhos, preenchendo os hiatos das trincheiras.
Até que, finalmente, me deparei com os hilotas, de todos os países e tempos, que cada vez mais se iam concentrando na ancestral praça solar, praia, praça feita de sal e espuma, onde acorrem as ondas, as hordas dos vencedores das trevas e do medo.
Foi assim, que regressando neste Outono à praia de que são ignaros os bens falantes e os bens posicionados, a revi juncada do rumor de conchas, coalhada de ideias e do marulhar dos gritos dos cadáveres hirtos, dos nunca heróis.
Pressentia os hilotas cozidos à linha de água, de cabelos húmidos da maresia, observavam o movimento da linha do horizonte e certamente pescariam na distância o próximo futuro, o fruto maduro da liberdade que lhe permitirá, tomar o pulso de uma alegria perene, no percurso pelas palavras do coração onde hiberna o dicionário.
Lisboa, 5 de Outubro de 2012
Carlos Vieira
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