sábado, 17 de janeiro de 2015

Título


Títulos
não são
o meu forte
é por vezes
uma tortura
procurá-los
e prender neles
o poema
poder
de síntese
títulos
que sejam
a senha
e recado
apelo inicial
o ponto de partida
a semente
que se reiventa
no seu rumo
erecta
a caminho do sol
palavra que bate
as asas ao longe
no horizonte
e que encurta
as distâncias
ou adensa
o mistério
que nos permite
o encantamento
e o silêncio
um título
é como o fruto
maduro
pendurado
na árvore
que existia
e assinalava
o pecado
no princípio
do tempo
ancoradouro
de versos
o teu nome
que deflagra
de desejo
a assomar
os lábios
e me devolve
a memória
uma identidade
saber nomear
o que amamos

proscrito
título
por cima
do escrito
passaporte
para a liberdade
Lisboa, 17 de Janeiro de 2014
Carlos Vieira


A borboleta e o lampião


Perplexa
perante a inquietação
e a esperança da luz
a borboleta imolou-se
debaixo de um lampião
de nada lhe serviu
a inglória vertigem
do conhecimento
no alcatrão
repousam agora
as suas cinzas
e no ar a última
memória de desalento.
Lisboa, 13 de Janeiro de 2014
Carlos Vieira


O túnel do silêncio



Saí do túnel do Grilo
e reentrei no do nevoeiro
sou este estranho hábito
inabalável vontade
ou mera circunstância
atração em viajar
pelo labirintos
do silêncio

Lisboa, 13 de Janeiro de 2014
Carlos Vieira

"Uma luz ao fundo do túnel"

Foto de autor desconhecido

A vida medíocre do pato-real


O pato
no lago
nada
em semi-círculo
nada
aleatoriamente.
O seu voo
curto
em arco
côncavo
finda
na orla
onde me encontro.
Atiro-lhe
dos bolsos
migalhas
vira-me as asas
que sacode
e volta
às águas paradas.
Até mais ver
companheiro
pato-real
habitante
do pântano.
Lisboa, 13 de Janeiro de 2014
Carlos Vieira


terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Em xeque



No xadrez
de luzes
do prédio em frente
o que mais me atrai
é o mistério das casa pretas
gosto das estratégias demoradas
de tempêros na cozinha
temo pelas auréolas
tremeluzentes
dos plasmas
pelo embrutecimento
antecipam a paisagem
da morte retangular
quase toda a gente
faz amor
às escuras
às apalpadelas
as crianças brincam
em módulo wireless
os adolescentes zombies
dormem de dia
e desconhece-se
o que fazem à noite
temo que seja magia negra
ali sobre o lado de direito
a casa sempre iluminada
vive uma mãe solteira
ou talvez casada com emigrante
é uma peça que vive na angústia
de viver neste jogo da vida
sem qualquer truque
sempre ameaçada
personagem desgraçada
depois existem três gatos
cinzentos
todos iguais
com os mesmos hábitos
de marqueses
de marquises
o sol nasce para eles
de sete vidas
vivem desafogados
não pedem nada
finalmente um pássaro
de voo exíguo
todo o dia de baloiço
em baloiço
até ao limite do absurdo
no xadrez do prédio em frente
vão-se apagando luzes
ninguém sabe
objectivamente
o que está em jogo
e quem está em xeque.

Lisboa, 11 de Janeiro de 2015
Carlos Vieira



sábado, 10 de janeiro de 2015

Pela estrada fora


Uma gota de orvalho
na vertical
desce pelo pára-brisas
a rola eleva-se
acima da cupúla
do pinheiro
e é devorada
pela neblina
um automobilista
carrega no acelerador
a fundo
ébrio de não ter meta
nem rumo
em excesso de velocidade
encontra um desvio
para o mundo
segue em linha recta
herói e mártir
da overdose do vazio
do detalhe
que faz a diferença
e se esfuma
na paisagem
dos lugares comuns.
Lisboa, 10 de Janeiro de 2014
Carlos Vieira

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Poema quase extinto



Aqui se vai apagando
a chama neste canto
de mim mesmo
onde me consumo
ninguém me chama
distraído do mundo
deixo passar a vida
e a minha vez
tenho de voltar
a tirar a senha
de ter a esperança
que nos legaram
os que agora
partem.

Lisboa, 7 de Janeiro de 2014
Carlos Vieira


“Departure” Paul Bond Fine Art