sexta-feira, 18 de abril de 2014

O córrego

o córrego
já só existe
para mim
no sulco
da poesia 
tento ainda
agora ouvir 
a sua melodia
na noite triste
coincide 
na insónia
dos canos
da água
da companhia
o desengano
vence-me
nem a sede
nem a solidão
é a mesma

Lisboa, 18 de Abril de 2014
Carlos Vieira








Sem palavras I



ladra 
desesperado
de fome 
ou da solidão
no fim do casario
um cão

a coluna de fumo
eleva-se 
de uma chaminé
à espera 
que se legende
a vida
sem horizonte

um pinhal 
esconde
a alma pura
do pinhão
o que está para lá
do abismo
a quem chamam
desconhecido

alguém espera
as palavras
que partiram
destemidas
pela estrada 
de terra batida
que voltem
com pessoas

os melros 
parecem letras 
pretas
gordas
que ficaram
por ali
a debicar
em silêncio

eu fico 
ali da janela
a esquadrinhar
no fim do lugar
anónimo
sobrevivente
a desdenhar
da crença
no princípio 
do mundo 


Lisboa, 18 de Abril de 2014
Carlos Vieira

Tornozelo...

tornozelo
esse osso esquecido
ao articular os teus passos
na feliz coincidência do teu corpo
rumo ao apelo dos meus braços

Lisboa, 18 de Abril de 2014


Carlos Vieira

Eterno retorno III



                                                                           O amor ou é louco ou então não é nada. (Milan Kundera)

do teu corpo 
ficaram
indeléveis 
as frequências
os recantos
a tendência
de decantar
na paisagem
que me cerca
os teus aromas
o pecado 
de conspirar 
nos teus lábios
a ler para mim
no meu tronco
a dedilhar
o deslumbramento
ao despertar 
entre a névoa
do desejo
hoje procuro
rente à pele decifrar
as cicatrizes
que deixaste 
por sarar
regressar a ti
descobrindo
no caminho
os rastos
que fiz sozinho
acompanhado
de estranhos ritmos
e cintilações
que não destrinço
se vindas
do passado
se do futuro
não sei se estou
tão perto 
ou se tu estás 
tão longe assim
ou vice versa
no amor sempre
prevalece 
este equívoco
esta desordem 
do tempo
e da distância
em que tu
és apenas 
tudo aquilo 
que nunca
se esquece

Lisboa, 18 de Abril de 2014
Carlos Vieira



quinta-feira, 17 de abril de 2014

Coração de quatro folhas

Coração de quatro folhas

I

nesse dia 
a neve caiu 
e tu foste nua
a razão de fogo
que nos despiu

II
em noite de Verão
foste todas 
as fases da lua
instante dourado 
das folhas em dança 
de Outono
nas primeiras chuvas

III
permaneces
latente 
flor de luz
a iluminar
o caminho
que permitiu
lembrar
o rumo 
inexplicável
do coração

IV
o teu rosto 
urgente
é a bússola
que me faz
acreditar
nada estar 
perdido
só de seguir
teu olhar
o sorriso
emergente
de amanhecer


V
ainda
acredito 
no teu cuidado
atento 
à estranha solidão
de um momento
em que me atrevo
e onde leio 
o teu silêncio
onde descobres 
o mar
que se vai quebrar 
de encontro 
ao cego encanto 
onde te perdi

VI
tu que descrevo
e te revelas
nas quatro páginas 
efémeras
de um conto
de um trevo
onde procuro
esquecer-me
de toda a ausência
e desencontro

Lisboa, 17 de Abril de 2014
Carlos Vieira

terça-feira, 15 de abril de 2014

Eis-me aqui cercado do verde irlandês...

Eis-me aqui cercado do verde irlandês, das pastagens, das sebes, dos renques de árvores, que fazem de fantasmas desgrenhados contra o pôr-do-sol. o horizonte distante e eu neste quarto de hotel, amarrado contra à minha pele, a expôr o meu ponto de vista, todo muito cinzento, como deve ser. cumprindo este desígnio de lamber papel e fazer de conta que descobri o ovo de Colombo ou que inventei a roda. lá fora o sol brilha insistentemente, e pela vidraça, imaculada, vinda da direita para a esquerda, a aparição de uma bicicleta vai pelo campo fora, duas rodas e uma rapariga de jeans, tudo tão sereno, pueril e harmonioso, nem a corrente salta da cremalheira, e eu que procurava  alinhar as ideias e dar-lhe sequência e ritmo, perdi-me na dissertação, perante o consórcio de observadores, sempre atentos à mínima falha e que nestas coisas dos eventos internacionais, tem outra pedalada.

PortLaoise, 15 de Abril de 2014
Carlos Vieira



segunda-feira, 14 de abril de 2014

Gaiola pendurada

gaiola pendurada
na varanda
oculta no meio do estendal
pássaros
com aroma de detergente
cantam por debaixo 
da tua roupa

Lisboa, 12 de Abril de 2014
Carlos Vieira