segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Natureza quase morta



Depois de derramar
todo o leite do dia,
vejo um branco mar,
avançando no seu amor
pelo dourado pinho,
na sede da toalha de linho.
Vazia, a garrafa na mesa  
é um farol prenhe de luz
de fado e de tristeza.
Porém, não adianta chorar
sobre o leite derramado.

Lisboa, 24 de Setembro de 2012
Carlos Vieira

domingo, 23 de setembro de 2012

sulco...


sulco

da cor da terra

esventrando a névoa

onde o teu rosto evoco

e o grão se esconde

da sofreguidão

das aves

 

Lisboa, 23 de Setembro de 2012

Carlos Vieira

Renovação




Tom Jobim: "São as águas de março fechando o verão, é promessa de vida no meu coração".

 

uma litania de frágua

dentro de nós

um canto de pedra

de folhas que caiem

e de musgo eterno

e de trevas e de fome

 

uma voz rouca

um sonho a pão e água

a decência

no clamor da razão

e da demência soterrada

 

o silvo das lâminas de vento

ávidas

do norte magnético do futuro

o dardejar cego das adagas

espreita sobre o muro do tempo

 

deste ninho de águia

sei agora as garras  e o olhar

que libertam sobre o abismo

o pensamento

em que volto a escutar em silêncio

o raiar de outro amanhecer

 

um beijo da brisa

na minha mão aberta

e aprendi a voar e perdi o medo

e oiço este estampido

que antecede o homem que cai

que se sucede ao estrépito

de poder mudar o mundo

 

Lisboa, 23 de Setembro de 2012

Carlos Vieira

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Fantasia verosímil


 

 

Olha irónica

em ziguezague

 

mais célere fulmina

de desprezo

 

tão inchada

destila de soberba

 

e, por cima do ombro

sorri de desdém e de sombra

 

Pitonisa

de nariz empinado

rumina

um silêncio de aço

 

foi então

que a luz de gesto ocasional

e de uma súbita ternura

se acendeu naquelas mãos crispadas

 

foi então

que expirou em estertor

a solidão snob

 

eu fui testemunha da visão

do milagre

sob a lua gelada

do coração da distância que explode

da queda da máscara

 

Lisboa, 21 de Setembro de 2012

Carlos Vieira

                                  "A Máscara Japonesa" de Gustave Courtois

 

 

 

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

História "em segunda mão"




passa a água sobre a ponte
e as quatro estátuas dos trabalhadores
abandonados ao verdete
da História
onde agora
aos seus pés 
acenam em protesto
apenas os sapos
a coaxar novas madrugadas
passa por nós o Neris
e sigo o cardume
dos nomes do extermínio
que nadam pelas esquinas
das pedras cinzentas
dos prédios
e se cruzam nas correntes
que estremecem no peito
por tantas vezes e vozes
nas duas margens
o eco da História
sitiado

Vilnius, 17 de Setembro de 2012
Carlos Vieira



                                                   Vilnius Things to Do Tip by IreneMcKay

domingo, 16 de setembro de 2012

Prova dos nove



Olho o mundo lá fora
cá de dentro do meu mundo
vou fazendo “de conta”
distraído das contas
e dos descontos
possuído dos contos
vou fazendo o meu “número”
neste conto do vigário
muito pouco contamos
muito pouco nos contam
cá de dentro do mundo
olho mundo lá fora
fiz a prova dos nove
não rima o poema
e as contas não “batem” certo!

Lisboa, 16 de Setembro de 2012
Carlos Vieira

sábado, 15 de setembro de 2012

Preso ao olhar por vadiagem


 

 

o cão vadio atravessa à rua

eu olho nos dois sentidos aflito

 

um cão atravessa a rua aflito

eu o vadio dou sentido ao seu olhar

 

a rua aflita olha para o cão e para mim

dois vadios sem mais que fazer ou ter

que a ela própria rua para atravessar

 

Lisboa, 15 de Setembro de 2012

Carlos Vieira

 

                                                          “stray dog” de Paul Zerbato