quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Poema para um amor impossível


Nunca te perdoará

nem desiste

porque só assim

poderás sobreviver

e só dessa forma

te resiste

 

Lisboa, 23 de Agosto de 2012

Carlos Vieira


                                           “Illusion” from Impossible Love – Dorina Costras

Memória Astral


Lembra-se
que cada beijo e cada carícia
era um pensamento franco
teu rosto ao espelho
era uma estrela independente
acesa no fogo roubado
aos deuses da Terra
que se dispunham
subtilmente
à tua volta
agora és apenas
poeira sideral
dessa constelação
e aos deuses restam
as tuas cinzas.
Lisboa, 23 de Agosto de 2012
Carlos Vieira
 
 
 
                                          De Yayoi Kusma

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Diagnóstico: fractura do fémur




Suas mãos frágeis

são o último esplendor do verão

pousadas nas minhas

pequenos pardais delicados

sem ritmo

desafinados

ou quedam-se na cansada

ternura dos jogos de luz

que se lhe escapa entre dedos

e a fractura.



Seus olhos tristes

a desaprender a vida

pássaros mínimos

e sempre tão brilhantes

que foram álacres

e agora tão mais ávidos

da fractura  

dos ramos e das flores

e da fruta madura



Tua boca de ave

tão pequena

tão poupada de todos os beijos

tão sofrida

das intempéries dos grandes voos

e de todas as mortes

tão só das poucas palavras

de nomear

as dádivas luminosas

que irrompiam das suas mãos

curando tantas dores

e tantas fracturas

o mesmo milagre

do pão e das rosas





Na geografia do teu rosto

aqui tão perto do meu

aqui estás neste ângulo

de há tantos anos esquecido

exactamente

180º à minha frente

enquanto pela primeira vez

te dou desajeitadamente

uma colher de sopa

e nela avalio

o gesso das fracturas

de todas as mães.



Fico à tua espera

daquele teu golpe de asa

em forma de sorriso

durante todo o tempo da visita  

pela primeira vez ali estás

sortilégio de carne e osso

entre lençóis brancos

minha flor renascida

minha mãe mais dura

heróica e triste

que a mais esta fractura

da vida resiste

no meio do meu poema

levanta-se e anda.





Leiria, 18 de Agosto de 2012

Carlos Vieira



                                                                   Chagall – “Flight”


sábado, 18 de agosto de 2012

universalidade





pronto

aqui me encontro

envolto num turbilhão

de fumo branco

um pé firme na Terra

uma mão cheia de nada

ausculto o eco das letras

nas palavras ditas

sondo-lhe o encanto

na voz rouca do vulcão

no primeiro voo da escrita

quando a sós

na vertigem do céu

de um qualquer poema

ousamos o mistério e o fogo

e se desatam nós de espanto

frente à imponência do caos

que moldamos no barro

helicoidal e paciente

na curva da idade

que nos permite distinguir

o fulgor e a errância

de cada ponto

na miríade de pó suspenso

a tristeza vencida

dos rostos cintilantes de gente

que em cada estrela distante

são a semente prenhe

dos sonhos

na sua elipse de regresso

à humanidade



Porto de Mós, 18 de Agosto de 2012

Carlos Vieira

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Chuva de Verão

Lá fora
chove no jardim
em agosto
dentro de mim
solta-se
o teu véu de seda
de ave táctil
e incansável imaginação
tecida
em puro acaso
notável descoberta
seminua
eras tão fresca e frágil
fora de mim
brisa do murmúrio
de um tempo diáfano
por ti caíam as bátegas
leves lâminas
nas asas do desânimo
no fim da tarde
o veneno dos segredos
por revelar
para surpresa da água
reconheço-te imaculado
corpo que foste antes do pó
e de refletida mágoa
serás sempre
quando fores fora de mim
 erguida estátua
onde já só irá correr
a memória de um amor
censurado
ali exatamente no coração
do lago
morto de sede e dos olhares
de pedra
assim permaneces
incólume e inexpugnável
meu bravo rio interior
do início da viagem
sem regresso
do medo até  à luz
sobre a suave alegria corroída
da acidez  do teu silêncio
e da chuva
áspera é a minha mão
que te percorre
o rosto
temperada pelo bálsamo
das tuas lágrimas  
apenas saberás de mim
que é Agosto
e que chove de novo lá fora
no jardim
agora que és esta imagem
que ficou de ti
já sinto de novo
a passagem do tempo


Lisboa, 16 de Agosto de 2012
Carlos Vieira




quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Mutações


Num corredor vi uma seta que indicava uma direcção e pensei que aquele símbolo inofensivo fora outrora uma coisa de ferro, um projéctil inevitável e mortal, que entrou na carne dos homens e dos leões e enevoou o Sol nas Termópilas e deu a Harald Sigurdarson, para sempre, seis pés de terra inglesa.
Dias depois, alguém me mostrou uma fotografia de um cavaleiro magiar; uma corda com várias voltas rodeava o peito da sua montada. Soube que a corda, que antes andara pelo ar e submetera os touros na pastagem, não era mais que uma gala insolente do arreio dos domingos.
No cemitério do Oeste vi uma cruz rúnica, lavrada em mármore vermelho; os braços eram curvos e afastados e rodeava-os um círculo. Essa cruz apertada e limitava a outra, de braços livres, que por sua vez figura o patíbulo em que um deus padeceu, a «máquina vil» insultada por Luciano de Samosata.
Cruz, corda e flecha, velhos utensílios do homem, hoje rebaixados ou elevados a símbolos; não sei por que maravilham, quando não há na terra uma só coisa que o esquecimento não apague ou que a memória não altere e quando ninguém sabe em que imagens o traduzirá o porvir.


Jorge Luís Borges. O fazedor. Trad. de Miguel Tamen

Sobre a lucidez

Tendo em vista com que lucidez e coerência lógica certos loucos justificam , a si próprios e aos outros, as suas ideias delirantes, perdi para sempre a segura certeza da lucidez da minha lucidez"

Livro do Desassossego - Fernando Pessoa