quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Agricultura sustentável



De vez
em quando
volto à timidez
das hortas
às raízes
caladas
das horas
e aí retomo
os altos voos
e desfio
a teia de orvalho
de uma vida
rasteira
a um palmo
acima
da terra.

Lisboa, 22 de Janeiro de 2014
Carlos Vieira

                                                          Foto de autor desconhecido


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Resistindo

Resistindo


Enfio-me no vale dos lençóis
de corpo inteiro,
enrolo-me como uma múmia
e ali fico a fingir de morto,
resistindo.

Quando vou no ar já durmo
e apanho as correntes de ar,
estou sem sombra de dúvida
cansado, de mim ou do mundo,
resistindo.

Durmo de costa a costa
e ao chegar de madrugada,
já me esqueci de quase tudo
e começo a vida de quase nada,
resistindo.

Dizem que isto é o sono dos justos
por ser tão profundo e sereno,
estou porém convencido, de que isto é
uma espécie de morte, a que vamos 
resistindo.

Lisboa, 21 de Janeiro de 2014
Carlos Vieira

Gala e Dali

Quando eram já muito velhos, o célebre pintor Salvador Dali e a sua mulher, Gala, tinham domesticado um coelho, que depois passou a viver com eles, sem os abandonar um instante; gostavam muito dele. Um dia em que tinham de partir para uma longa viagem, estiveram a discutir até muito tarde, durante a noite, o que haviam de fazer com o coelho. Era difícil levá-lo, mas não era menos difícil confiá-lo a alguém, porque o coelho desconfiava dos homens. No dia seguinte, Gala fez o almoço e Dali deliciou-se com ele, até ao momento em que percebeu que estava a comer um guisado de coelho. Levantou-se da mesa e correu para a casa de banho para vomitar no lavatório o seu animalzinho querido, o fiel companheiro dos seus dias de velhice. Gala, em contrapartida, sentia-se feliz por o seu amado lhe ter penetrado nas entranhas, as ter acariciado lentamente, transformando-se no corpo da sua amante. Não conhecia consumação mais absoluta do amor do que a ingestão do bem-amado. Comparado com esta fusão dos corpos, o acto físico do amor parecia-lhe um prurido irrisório.


Milan Kundera, A Imortalidade

O Fósforo na Palha


Aos meus olhos
a cidade organiza
a sua tristeza.

Uma cintura aperta
a asfixia.
Um furo mais.

Um riso eleva-se
e sou eu que rio
sou eu que amo.

Auxilio a cidade
a suportar.
Um furo menos.

Não há pedras bastantes
para o nosso túmulo.


Egito Gonçalves

Encontro nos vincos...

Encontro nos vincos mais longínquos dos meus
dedos o cheiro parado do teu olhar tão móvel. Procuro-te
nas esquinas dos instantes que passam. Reconheço-te
no vinco que a ternura deixa na carne do peito do
meu olhar, aquele que deito para longe, para outra esquina,
de onde recebo mensagens de outro olhar igualmente
teu, igualmente meu, reflectido na montra de
uma loja do nosso sono.


Manuel Cintra

Num acanhado apontamento...

Num acanhado apontamento
pergunta a tabuada.
A reza de números, a regente
indaga de seguida
numa página coçada
gramática.
O arroubo, o ilógico
elemento decorado,
um pronome pessoal que laço
a um colega miudinho,
ígneo arrojo.
Joaquim Manuel Magalhães

O desvalor da acção

o desvalor da acção

não me importa
o que canto
nem porquê
sou como o pardal
que ninguém
diz que desafina
apenas canta

não me importa
o que escrevo
manga de alpaca
que completa 
um formulário
e vive do encanto
das palavras

tão pouco 
me importa
o que digo
não sou mais
do que um 
fala barato
que não tendo
com quem 
falar fala
consigo

Lisboa, 21 de Janeiro de 2014
Carlos Vieira