sábado, 18 de janeiro de 2014

Elogio dos sonhos

Nos sonhos
pinto como Vermeer Van Delft.

Falo grego com fluência
e não apenas com os vivos.

Conduzo um automóvel
que me é obediente.

Sou hábil,
escrevo grandes poemas.

Escuto vozes
tão bem como os santos mais austeros.

Ficaríeis admirados
da perfeição com que toco piano.

Consigo voar como devia ser,
isto é, eu de mim própria.

Ao cair de um telhado
sei como descer levemente na verdura.

Não tenho problemas
em respirar debaixo de água.

Não me lamento:
consegui descobrir a Atlântida.

Fico contente porque, antes de morrer,
consigo acordar sempre.

A guerra a rebentar
e eu a virar-me para o melhor lado.

Sou, sem ter porém
que o ser, filho da época.

Aqui há alguns anos
vi dois sóis.

E, antes de ontem, um pinguim,
ali, muito nítido, ao pé de mim.


Wislawa Szymborska
in PAISAGEM COM GRÃO DE AREIA, trd. de Júlio Sousa Gomes,RELÓGIO D'ÁGUA, Lisboa 1998, pág. 133 e 135.

FORAM OS LIVROS...


Foram os livros, todos os livros que lemos, que nos ajudaram, através das palavras, a dar uma nova vida às coisas fazendo-as renascer. Bernadim mostrou que o rouxinol não era apenas um pássaro catalogado pela ornitologia. E muita da tristeza do seu canto foi escutada, séculos depois, por Florbela Espanca, Pela leitura aprendemos a gostar de relações delicadas e amplificadoras como a do rouxinol com a tristeza. Esta que cobre as suas penas. Ele que com o canto narra a sua alma. A tristeza que se expande no seu voo e se recolhe na palavra rouxinol. E a alegria do rouxinol (o canto) serve, paradoxalmente, para exprimir a nossa tristeza. Não é uma metáfora nem uma figura de estilo. É ainda uma maneira de compreender a vida a partir dos nomes. Uns simples, como o Melro, de Junqueiro, ou a Cerejeira, de Torga, outros enigmáticos como Raomomar, de António Maria Lisboa.


Manuel Hermínio Monteiro, Uma Rara Magia

AS COISAS FRÁGEIS


Pegava-te no nome como no aquário
verde, quando era ainda cidade de peixes –
bichos de alimento diário e morte mensal,
silenciosa, sem desgosto ou pânico,
indiferente à vida. (As nossas, as deles.)
Hoje caminho, como todas as manhãs, com a tua existência
nas mãos (na cabeça, nos pés), seguro-a como coisa frágil,
quebradiça – coisa morta do dia em que morreste.
Recordo apenas o pássaro. Tinha no nome ruivo
e no bico o som atenuado de uma canção.

[in As Coisas, Abysmo, 2012]

Minha filha...


Minha filha
pouso os lábios
na tua testa
ardes de febre
o meu coração
é agora pássaro
preso na gaiola
do desassossego.

Lisboa, 18 de Janeiro de 2014
Carlos Vieira



                                                                Pintura de Klimt

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

E de Espinhas para um gato V



LA CATHÉDRALE ENGLOUTIE


Deste lado da vida
são sete horas (vestidas
de preto, vermelho e medo)
da manhã de outro dia.
Mas a janela fechada dá
para a noite ancorada
de leve sobre as esperanças
azedas da cidade.

Conto um rio preso num poço,
dois comboios afogados na pressa,
meia dúzia de faróis
acesos em prédios
cuja felicidade parece sempre
proporcional à distância.

O vinil negro continua a rodar,
atiça os seus pássaros enferrujados
contra a lua atada 
a uma das chaminés.
E a luz que nunca chega
traz as últimas notícias da guerrilha,
expõe o plástico roto nas armas
dos nossos heróis de ontem.

Abandono as saudades 
pelos telhados, com
as patas embaciadas, os olhos
magros. Saio.
Recomeço a fazer horas
para novos sonhos. 


Inês Dias, Um raio ardente e paredes frias,
Lisboa, Averno, 2013

Angelita



Tatuar o corpo de ANGELITA
Nas escrituras da vida
É o que melhor faz o poeta JOSÉ TERRA.
Apresentar seu rosto ao sol e à chuva
É amar incondicionalmente a criança e o idoso.
Maravilhar as suas mãos
É unir todo homem e toda mulher.
Pousá-la no peito
É fazer a música maior dos anjos.
Creio que dormir entre seus seios
Tem a magnitude do vinho de DEUS.
Não há diferença entre estar nas suas coxas
E comer o pão e o peixe do dia.
Sou transcendental : admiro e gosto de suas nádegas.
Inscrever o amor-paixão nas suas costas
É saber a essência das coisas eternas.

Jose Terra


Quietude



Pressinto as asas
do silêncio
a adejar no escuro
no tímpano da alma
sei de onde vens
para onde vais
ressoa o eco
dos passos
que não deste
a medição
geométrica do vazio
onde me encontro
na bissetriz
do meu desejo
contido
e da tua respiração
no perímetro
dessa ausência
dolorosa
que ouço
em silencioso
recolhimento.

Lisboa, 17 de Janeiro de 2014
Carlos Vieira

                                               "Quietude Bleu au Chat" por Emile Bellet