domingo, 12 de janeiro de 2014

Estou triste esta manhã...

Estou triste esta manhã. Não me repreendas.
Escrevo-te de um café próximo da estação dos correios,
Entre os ruídos secos das bolas de bilhar, o retinir das loiças,
As batidas do meu coração.


Delmore Schwarts

A tua boca sobre marte

 (Maria Azenha)


mãe — é dezembro
se morreste, porque fazes
tanta força contra os números?
porque fazes tanta força
na matéria?
as máquinas levaram tudo
— a tabuada a lua.
a febre dos satélites entrou pela casa dentro. Ouves?
sentes?... todos os frutos
ao contrário na tabua­
da da neve.
e a tua boca sobre
marte. e eu sonhando.
sonhando o alfabeto como uma 'máquina lírica'.
sei agora ao contrário
como se chama o inverno. e as árvores
todas destelhadas pelos ventos
de mercúrio. Ë o teu nome dentro
com toda a força na paisagem:
as páginas as
casas

os peixes encarnados avançando
pelos números.

e a chuva toda lá fora ardendo,
pesada,
sobre a terra inteira como estátuas puras.
como se chama, mãe, a neve agora?
agora, mãe,
é janeiro
todo o tempo fora:
— as máquinas levaram tudo,
a tabuada a lua.

 

No café...

No café trazem-me um copo com água
como se ele resolvesse todos os meus problemas.
É ridículo - penso - não há saída.
No entanto, depois de beber a água
fico sem sede.
E a sensação exclusiva do organismo
acalma-me por momentos.
Como eles sabem de filosofia - penso -
e regresso, logo a seguir, à angústia.


Gonçalo M. Tavares

O mundo de pernas para o ar



Nunca tive 
os pés bem assentes 
na Terra,
não sei se essa 
era a minha grandeza
ou maior fragilidade,
sei que chegava
à merecearia
que distava 50 m
da minha casa
e já me esquecia
do recado,
da minha mãe
que dizia:
" Que grande 
cabeça no ar".

Sem os pés na terra
e a cabeça no ar,
essa podia ser
a raíz que em mim
já firme crescia.
150g de fermento
ou de poesia?

Lisboa, 12 de Janeiro de 2014


Carlos Vieira

Autonomia de voo



Sentia-se nas alturas
como peixe na água,
ele de qualquer forma
transportava sempre
esse excesso de peso
que sempre o impedia 
de grandes e altos voos
o medo de perder-te.

Lisboa, 11 de Janeiro de 2011
Carlos Vieira

sábado, 11 de janeiro de 2014

Loucos e santos

Escolho meus amigos não pela pele
ou outro arquétipo qualquer,
mas pela pupila.

Tem que ter brilho questionador
e tonalidade inquietante.

A mim não interessam:
os bons de espírito
nem os maus de hábitos.

Fico com aqueles que fazem de mim
louco e santo.

Deles não quero resposta,
quero meu avesso.

Que me tragam dúvidas e angústias
e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco!

Quero os santos, para que
não duvidem das diferenças
e peçam perdão pelas injustiças.

Escolho meus amigos
pela alma lavada
e pela cara exposta.

Não quero só o ombro e o colo,
quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto,
não sabe sofrer junto.

Meus amigos são todos assim:
metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis,
nem choros piedosos.

Quero amigos sérios,
daqueles que fazem da realidade
sua fonte de aprendizagem,
mas lutam para que a fantasia não desapareça.

Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância
e outra metade velhice!

Crianças, para que não esqueçam
o valor do vento no rosto;
e velhos, para que nunca tenham pressa.

Tenho amigos para saber quem eu sou.

Pois, os vendo loucos e santos,
bobos e sérios, crianças e velhos,
nunca me esquecerei de que "normalidade"
é uma ilusão imbecil e estéril.



Amargo beijo


Acordo com o teu nome nos 
meus lábios - amargo beijo

esse que o tempo dá sem
aviso a quem não esquece.


Maria do Rosário Pedreira