sábado, 28 de dezembro de 2013
Ode ao Tejo e à memória de Álvaro de Campos
E aqui estou eu, ausente diante desta mesa — e ali fora o Tejo.
Entrei sem lhe dar um só olhar.
Passei e não me lembrei de voltar a cabeça, e saudá-lo deste canto da praça: "Olá, Tejo! Aqui estou eu outra vez!"
Não, não olhei. Só depois que a sombra de Álvaro de Campos se sentou a meu lado me lembrei que estavas aí, Tejo.
Passei e não te vi. Passei e vim fechar-me dentro das quatro paredes, Tejo!
Não veio nenhum criado dizer-me se era esta a mesa em que Fernando Pessoa se sentava contigo e os outros invisíveis à sua volta, inventando vidas que não queria ter.
Eles ignoram-no como eu te ignorei agora, Tejo.
Tudo são desconhecidos, tudo é ausência no mundo, tudo indiferença e falta de resposta.
Arrastas a tua massa enorme como um cortejo de glória, e mesmo eu que sou poeta passo a teu lado de olhos fechados, Tejo que não és da minha infância, mas que estás dentro de mim como uma presença indispensável, majestade sem par nos monumentos dos homens, imagem muito minha do eterno, porque és real e tens forma, vida, ímpeto, porque tens vida, sobretudo, meu Tejo sem corvetas nem memórias do passado...
Adolfo Casais Monteiro
Pura evasão
Hoje, é um daqueles dias que estando na cidade,me apetece o campo.
As veredas de arbustos lacrimejantes.O caminho mínimo e vertical do caracol subindo o tronco. A cal das casas antigas e dos muros, contornados pelo verde rasteiro das ervas. A expressão paciente dos rostos com rugas. O aroma do vinho novo das adegas. As capelas onde todos meditam e oram, por tudo e por todos com suas torres e sinos, onde se anunciam as horas e as mortes. As brancas escolas primárias com seus quadros negros e números brancos e o cheiro da tinta permanente.
Tenho sede das fontes e açudes com seus murmúrios e recantos de água, da fragilidade dos cântaros, da graciosidade pueril da história de amor campestre e medieval.
Regressar à lengalenga e à mímica outonal, da empa e da poda dos agricultores, abraçados às plantas nas vinhas e pomares.
Segreda-me a saudade do silêncio das noites aldeias, assando batatas doces na magia das larareiras, repetindo excertos de contos e de realidade fantástica e de coragem de que só me lembro o final, "morra homem e fique fama" e a outra, em que alguém jurava que J. aguentara, "meia hora debaixo de água", num qualquer pego.
Apetecem-me as tabernas com seus balcões altos, onde alumiando repousavam a solidez de vidro dos copos de três e a transitoriedade das cascas de tremoço.
Quero despertar outra vez com um canto do galo e avistar na crista da serra, o sol, que a seguir tropeça, refratando a dor da sua luz, numa pedra de quartzo.
Confesso e assino que hoje me apetece o campo e possivelmente se ali estivesse me apetecesse a ti, cidade, porque não descanso, enquanto não encontro refúgio, de mim!
Lisboa, 28 de Dezembro de 2013
Carlos Vieira
Cheguei a casa...
cheguei a casa, pouco depois, soterrei a alma, permaneci imóvel diante dos livros. pensei, há-de haver um poema que me tire daqui, um só poema que me traga a morte com toda a benignidade do mundo.
valter hugo mãe, folclore íntimo
valter hugo mãe, folclore íntimo
blues da morte de amor
já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida,
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.
a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.
há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete: — morrer ou não morrer, darling, ah, sim.
Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"
TESEU SEM MINOTAURO
para o Manuel de Freitas
Como em qualquer labirinto, estas esquinas
apenas garantem que não há certezas
na direcção do futuro. Lisboa
nunca foi como em tempos a sonhei.
E contudo venho aqui em peregrinação
habitual, sem tão-pouco saber que lhe pedir.
Indecisões da fé e da sua alavanca diminuta,
à qual desmesuradamente chamamos coração.
Vitor Nogueira
Restaurante
Leva-me outra vez para a mesma mesa
onde fico de costas para a janela
onde o tempo me esquece
onde nada me toca
o teu gesto protege
o teu corpo separa
a água que me dás
interrompe a memória
Só à porta da rua
o tempo reaparece.
em A Oriente, 1ª edição, Lisboa: Editorial Presença, colecção Forma – 38, 1998, p.12
Nada nem nenhum...
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