sexta-feira, 20 de julho de 2012
Rescaldo
a língua de fogo
devora-nos a floresta
o peito e a página
do mundo
e no rescaldo
um brinquedo
deixado à pressa
entre as cinzas
de um poema
o eco dos pássaros
as estrelas do céu
nos homens sem tecto
alargou-se a clareira
no seu olhar extinto
de carvão
nas suas palavras
extenuadas
e sem chama
e sem chama
ainda assim
na desolação
por entre queimaduras
de todos os graus
por entre queimaduras
de todos os graus
anuncia-se débil
o reacendimento
da esperança
Lisboa, 20 de Julho de 2012
Carlos Vieira
Virna Haffer “Abstract # circa 1960s. Photogram
pouco conseguido poema para uma despedida
despede-se
a timidez já tarde
o súbito ruído insuspeito
revela-me a sua tez
que perde o pudor
doce é ainda o alarde da nudez
perante o rubor do acorde
que lhe morde a pele
no silêncio dos ombros
e o breve susto
sob a luz quase lúgubre
depois do rodar da chave
derramava-se o mel
na penumbra do aposento
a sua astúcia lasciva
pelo meu território lacustre
e durante muito tempo
ainda pairou teu aroma insalubre
vence-me o contraste da raiva
depois que fomos
uma tristeza esquiva
rendido à vã glória
do que foi ilustre
quando voltamos
ao dilema do mestre
libertar-se da febre do saber
ou do medo da peste de amar
a oeste tudo de novo
até que a morte nos separe
no fulgor do lustro
ficou a terna nódoa
memória da tua presença
do suor da tua casta mão
a incomodidade da lasca
o desassossego do sangue
adivinho o teu corpo aceso
sob a transparência
das tuas vestes de linho
tua chama eterna
depois da cortina
bruxuleante bailarina
ardil de lanterna
ou da minha imaginação
ardendo do combustível
que é agora a solidão
dos nossos corpos nus
e ausentes
Lisboa, 20 de Julho de 2012
Carlos Vieira
segunda-feira, 16 de julho de 2012
Constelação
Nesta viagem
este insólito regresso
ao teu exílio no firmamento
onde és o inverosímil solstício
Sai ágil e nua
de dentro de si
e reconstroem-se inebriantes
os cheiros da casa nesse céu primordial
Ali ouves o apelo
e a aritmética distância
a espuma e o mar revolto
e na falésia o farol que em ti naufragou
Na janela solta-se
a inesperada ave
de par em par noutro país
o teu reflexo e sua inédita integralidade
Depois dos frémitos
da ternura
dos sonhos e seus fragmentos
o seu olhar era a exacta eloquência do equinócio
Lisboa, 16 de Julho de 2012
Carlos Vieira
Constellation
- Awakening at Dawn-Juan Miró
domingo, 15 de julho de 2012
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