quarta-feira, 16 de julho de 2014

Alguém toca a campainha...

alguém toca a campainha
insiste
hoje não estou 
para ninguém
hoje é um dia sem história
e sem água
o estranho que tocou à porta
vinha substituir
o contador

Lisboa, 16 de Julho de 2014


Carlos Vieira

No seu peito...

No seu peito 
fenece o canto
obscurece a razão
no Verão não há rio
a alegria entristece
o coração vazio
e em vez do saber 
da doçura
medra 
a pedra dura
do esquecimento.

Lisboa, 16 de Julho de 2014
Carlos Vieira



terça-feira, 15 de julho de 2014

Hoje comprei...

Hoje comprei 
um kg de cerejas
no supermercado
que de seguida comi
e de cima da cerejeira
da infância ouvi
meu avô
"- Rapaz vê lá, 
se não cais daí!

Lisboa, 15 de Julho de 2014
Carlos Vieira

um cão rafeiro...

um cão rafeiro
passa por mim indiferente
apresso o passo
não se lembre ele 
de me vir mijar 
nos sapatos

Lisboa, 15 de Julho de 2014
Carlos Vieira

A erva...

a erva 
à minha porta
cresce com a minha ausência

Lisboa, 15 de Julho de 2014
Carlos Vieira

Nesta manhã...

Nesta manhã
cego pela neblina
hei de colher
os figos pingo de mel
que te prometi
e depois soltar
teus olhos
empoleirados na solidão
dois pássaros
a debicar
no meu deslumbramento
sem futuro.

Lisboa, 15 de Julho de 2014
Carlos Vieira


segunda-feira, 14 de julho de 2014

A coincidência das palavras 2



Perseverar
na busca da palavra
que renova o ar
e no reverso 
o pássaro em voo
reconstrói
e se esmaga
na urgência do beijo
ponto de luz
que emerge na manhã
aroma que fere
na corola da noite 
piano de cauda 
onde um gato doméstico
insiste na tecla
do coração
e sílaba a sílaba
inventamos a vertigem
do texto
onde não fica
pedra sobre pedra
e um vocábulo
se ergue erecto
émulo 
do diálogo das estrelas
linguagem 
de um ângulo aberto
e mais perene
sublimando 
a expressão rasa
de outro mundo
para onde convirja
a eloquência
da descoberta
de uma nova 
humanidade.

Lisboa, 14 de Julho de 2014
Carlos Vieira