quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A esse pássaro...



A esse pássaro que canta nas árvores
apetece-me atirar pedras,
a ver se de uma vez por todas
ele se decide por voar mais do que canta.

A esse pássaro de gaiola
apetece-me envenenar a alpista,
a ver se lhe alivio as dores
de tanto esbarrar contra as grades.

Só à águia embalsamada na taberna
da Francisca nada me apetece fazer.
Fico a olhá-la como a um espelho.
E nada me apetece fazer.



(A dança das feridas, Colecção Insónia, 2011, p. 21)


Henrique Manuel Bento Fialho

Apago cigarro após cigarro


Apago cigarro após cigarro,
a chávena ainda quente do café,
e o corpo todo à escuta.
No sono entrevi o teu olhar e
ao visitar-te, excessivamente te beijei.
Entre temor, entre comas, os lugares
que habito são apenas pontos
de esquecimento e fuga.

Tenho medo, por vezes, de estar em casa,
outras, de sair, não sei o que me persegue
ou persigo, movo-me apenas
por entre odores, escombros, e aflita
com perigos indefiníveis.

Os dias todos assim, & etc., 1996, pág. 30

Antony and the Johnsons - fistful of love

OREGON-The silence of a candle

Outra vez...

Outra vez 
este pesadelo recorrente
sozinho no tabuleiro da ponte 
suspenso de um sonho 
decadente
na outra margem do tempo
o teu lenço
envolve o rosto
eloquente
uma gaivota que resgata
a promessa de beijo
da cinza
ou do aluvião da corrente
enquanto pilares se inclinam sobre o Tejo
e o presente
se extingue perigosamente
chamo-te aos gritos
e gesticulo e corro
e querendo
não ando em frente
cresce uma a névoa
e a sensação de desterro
acordo estremunhadamente
e percebo o fumo do cigarro
mal apagado
que ameaça acender
no teu retrato
um rio de fogo
e levar-te
ignora que o sonho acordado
do teu rosto
nas duas margens
irá permanecer
por toda a parte
aceso para sempre.

Lisboa, 15 de Janeiro de 2014
Carlos Vieira


Gif de autor desconhecido

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Instantes



Se eu pudesse novamente viver a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito,
relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido.
Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico. Correria mais riscos,
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui,
tomaria mais sorvetes e menos lentilha,
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata
e profundamente cada minuto de sua vida;
claro que tive momentos de alegria.
Mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente
de ter bons momentos.
Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos;
não percam o agora.
Eu era um daqueles que nunca ia
a parte alguma sem um termômetro,
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas e,
se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo

(Nota: este poema não é de Jorge Luis Borges)

Don Herold

Leis no coração do caos

Se urdimos leis no coração do caos, foi para as pernas não tropeçarem uma na outra, foi para que os braços não enrolassem o pescoço, foi para que o destino ficasse mais longe.


Henrique Manuel Bento Fialho