quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A educação pública

“A educação pública nunca resolve o difícil problema do desenvolvimento simultâneo
do corpo e da inteligência”
Honoré de Balzac

Poema para mulher com o deserto ao fundo


 

A tua silhueta

se desvanece

te devolve

ao inferno

do nada

nas dunas

de olvido

te deserda

de ternura

e de visão.

 

Tu és a filha pródiga,

e ninguém

recebe de volta:

a mulher

que cega ficou

na tempestade

de areia,

nem a mulher perdida

que traz

o espelho

onde nos voltamos

a encontrar.

 

Te fulminam

te abandonam

não se condoem

sobra-lhe

no coração

a cimitarra

da guerrilha

e da ingratidão

perante

o teu desvelo

de figos

e de mel.

 

Nele

só há lugar

para o golpe

de misericórdia

está extinta

a chama do saber

e cerce o gume

das trevas

degolou

a rebelião

do amor.

 

Querem-te assim

pássaro triste

sede do deserto

lágrimas de bruma

e alma penada

na orla da floresta

depois vai aparecer

na pele do príncipe

que te quer salvar

depois que te quis

perder.

 

O singelo amparo

das tuas mãos

em concha

o acolhe,

teus olhos

de tâmara

ocultos

na vegetação

do oásis

o envolvem.

 

Tu eras a pérola triste

no vazio

do seu coração

no cárcere

do seu corpo

ali emboscados

reside a palavra

pedra

o sangue fresco

assassino

o gesto

e no véu

rasgado

floresces

o relâmpago

do teu vulto

onde evola

o perfume

épico

da tua solidão.

 

Lisboa 23 de Agosto de 2012

Carlos Vieira

                                           "One eyeland desert woman” de Christopher Wilson

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Um lugar à sombra



Ele estava preso
ao grilhão do amor
que não se esquece
na suave memória
um ardor infinito
que dilacera
e em nós vive abraçado
esse anel de calor
que envolve
a tua espera
em eterna sombra
círculo de frio
luar que impede
de reinventar
um outro sol
noutro lugar
uma outra lua
relógio ferido
dor agridoce
mártir do tempo

Lisboa, 23 de Agosto de 2012
Carlos Vieira


                                                     “Live by the sun, love by the moon”


                                                       
                                                                  "Tree tattoo" Maluna
 
                                                        
 
 

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Um grão de pó

As chamas eternas
da solidão
te condenaram
te reduziram ao pó
atirado ao mar bravio
para que fosses
renovada inocência
que a brisa esculpiu
na areia
que pisas na praia
esse sempre renovado
caminho do mar
e do futuro
vais devagar
pelas nuvens
de mão estendida
cheia de tudo e de nada
a plácida essência
do teu corpo audaz
e vertical
que voa pelo espaço
sideral
se desfaz
numa curva de sal e espuma
entre os seus dedos
há uma semente
que se esgueira
e de onde se liberta
a fragrância
de um novo tempo
essa corrente
que te arrasta pelo céu
errando
à mercê dos sonhos

Lisboa, 23 de Agosto de 2012
Carlos Vieira
 

 Kepler 16-B (Planeta com dois sóis)

“ Dada a relação do planeta com as suas estrelas, Doyle e a sua equipa também levantaram a hipótese que o planeta tenha se formado no próprio disco de pó e gás que originou ambos os sóis.”Ver mais

Desamor pela “vida”



É cínica e milimétrica a estultícia
a estratégia da aranha
o ácido que corrói a razão
tecendo curvas de nível
vítima de injustiça destila
veneno de cinza e solidão
e faz contas nas margens
da vida a mulher que dizem proscrita.

Não a vergam de fome ou de vergonha
da soez difamação ou do jugo
do muro das lamentações
olha em desafio o verdugo
rasga o pacto e na memória
da pele adormecida de luz
suporta o motim da ousadia
ainda que tal a possa levar de novo à cruz.

Crescem lancinantes por dentro de si
todos os espinhos e a revolta
o apelo mágico do desconhecido
os cantos de sereia do indulto
nem os toques suaves de reconquista
no território do cetim proibido
nada a vai desviar e fará que desista
da pura sumptuosidade da alma em nu absoluto.

Lisboa, 23 de Agosto de 2012
Carlos Vieira


                                                         “Awakening” Simona Mereu

sábado, 25 de agosto de 2012

Amor e morte


 

Não tolera

a leviandade

a perfídia

ou a armadilha

do teu corpo disponível

pouco importa

a labareda e os caracóis

dos teus cabelos

a hora é a sombra

de um tigre

que adormece

é sua a garra

na tua respiração

suspensa

a noite

uma romã

que te devora

 

Lisboa, 23 de Agosto de 2012

Carlos Vieira

“Dream Caused by the Flight of a Bee around a Pomegranate, One Second before Awakening”

Salvador Dali

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Nasceu para ser selvagem



Sabe das pistas da selva
pela tua volubilidade animal
pela insolência das palavras
que proferiste
pelo teu gesto obsceno
no estalido das folhas secas
sob os teus pés
sabe do perigo que corres
na destemida fuga
por tudo isso
afasta-se de ti
embriagado da liberdade
do puro reflexo
das gotículas de orvalho
e por puro instinto
ama agora ferozmente
a natureza
a que pertences.

Lisboa, 23 de Agosto de 2012
Carlos Vieira

                                                            “Woman” By Kubicki