terça-feira, 10 de julho de 2012

Pau de fósforo


pau de fósforo

mínima parcela do pinhal

que acenou seu verde gesto

sobre o horizonte azul-cobalto

onde se festeja a melancolia do sal

de que o vento pouco a pouco se despediu

e escondeu o ninho e sustentou o primeiro voo

sucumbiu na queda da árvore e viu à luz fluorescente

da fábrica erguer-se a lâmina que cerce lhe desenhou seu futuro

e moldou a vermelha substância que um dia se acendeu em flor efémera

depois do desesperado cigarro foi o sopro e a pirueta pelos ares impulsionado

última memória antes da vida espezinhada e agora subitamente uma piedosa mão

lhe deu o destino de travar a janela permitindo à brisa fresca reconhecer naquele corpo

o perfume do pinho verde e a resina que de si brota ténue rastilho que a enlouquece apenas

de espreitar as sombras que se apagam na placidez do parque atormentando a carne do Verão



Lisboa, 9 de Julho de 2012

Carlos Vieira


domingo, 8 de julho de 2012

Tomasz Stanko : Lontano I

Your Heart Is As Black As Night - Melody Gardot

Love Ballade - Oscar Peterson & Ulf Wakenius & Niels-Henning Ørsted Pedersen & Martin Drew

"I have great faith in fools; self-confidence my fiends call it;"

Edgar Allan Poe

Viagem de circum navegação



Eis-me aqui ao leme no meio do turbilhão do nosso desejo

Sulcando teu corpo sendo toda a Terra és tudo o que vejo

Teus dentes brancos na crista da onda no peito me devoram

Enquanto lentamente te atravesso tuas profundas entranhas

As unhas cravadas nos meus ombros toda a razão dilaceram

Tendo-te à mercê sem nunca te entregares me acompanhas

Mesmo quando a tua agitada tempestade mais me atormenta

Sigo no teu rumo e querendo-me salvar em ti fico perdido

Minha alma em chamas a tua carne doce de coral sustenta

Fujo do olho do furacão e se mais longe de ti mais desmedido

Mais cego do amor que desce na vaga e se torna mais fecundo

Nesta expedição em que para fugir de ti fui ao encontro da dor

Erro no labirinto cósmico do teu corpo pois não há mistério maior

Que o de olhar-te nos teus olhos e entrando em ti escutar o mundo



Lisboa, 8 de Julho de 2012

Carlos Vieira