sábado, 18 de janeiro de 2014

We are against the war


Aqui há gato




Vejo o gato amarelo
que puxa os estores
e se senta à janela,
observa embevecido
a cofiar os bigodes,
sorrindo sarcástico
para os transeuntes
que estão presos,
ao guarda chuva
à direção do vento,
tiritando de frio
ignoram que existe
um gato amarelo,
omnipotente,
a olhar para eles.

Lisboa, 18 de Janeiro de 2014

Carlos Vieira




                                      Paris Through the Window. by Marc Chagall (1887-1985). Oil on canvas. 1913.

Quando o Meu Amor Vem Ter Comigo


quando o meu amor vem ter comigo é 
um pouco como música,um 
pouco mais como uma cor curvando-se(por exemplo 
laranja) 
                     contra o silêncio,ou a escuridão.... 

a vinda do meu amor emite 
um maravilhoso odor no meu pensamento, 

devias ver quando a encontro 
como a minha menor pulsação se torna menos. 
E então toda a beleza dela é um torno 

cujos quietos lábios me assassinam subitamente, 

mas do meu cadáver a ferramenta o sorriso dela faz algo 
subitamente luminoso e preciso 

—e então somos Eu e Ela.... 

o que é isso que o realejo toca 

E. E. Cummings, in "livrodepoemas" 
Tradução de Cecília Rego Pinheiro



Nightcap


Wild Child


Dylan Thomas

Crow Haiku


MAMOGRAFIA DE MÁRMORE




Deliciam-me as palavras
dos relatórios médicos, os nomes cheios
de saber oculto e míticos lugares
como a região sacro-lombar ou o tendão de Aquiles.

Numa mamografia de rastreio,
incidência crânio-caudal seria
um bom título para uma tese teológica.

Alguns poetas falam disso. Pneumotórax
de Manuel Bandeira ou Electrocardiograma
de Nemésio, para não referir os vermelhos de hemoptise
de Pessanha ou as engomadeiras tísicas
de Cesário.

Mas nenhum(a) falou (ou fala)
de mamografia de rastreio. Versos dignos
só os de mamilo róseo desde o tempo
de Safo ou de Penélope. E, de Afrodite
enquanto deusa, só restaram óleos e
mamografias de mármore.


Inês Lourenço no Poesia Ilimitada