quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Verdade e Mentira




Sei que há imensas coisas na história de uma família que são pura fantasia. Qualquer família. as histórias vão passando de geração em geração e a verdade vai-se perdendo. Quem conta um conto acrescenta um ponto, como se costuma dizer. Alguns talvez achem que isto significa que a verdade não consegue competir com a mentira. Mas eu cá não acredito nisso. Cá para mim, depois de todas as mentiras terem sido contadas e esquecidas, a verdade perdura ainda. Não anda a fugir de um lado para o outro e não muda com o passar do tempo. É impossível corrompê-la, assim como é impossível salgar o sal. É impossível corrompê-la porque é pura, sem adornos. É a matéria de que são feitas as nossas palavras. Já ouvi compará-la à rocha - talvez a bíblia - e não discordo dessa ideia. Mas a verdade permanecerá, mesmo quando a rocha tiver desaparecido. Tenho a certeza que certas pessoas discordam isto. Bastantes, aliás. Mas nunca cheguei a perceber em que é que nenhuma delas acredita. 

Cormac McCarthy, in 'Este País Não É para Velhos"

Viagens XIV



Na estação dos comboios é admirável
a leveza do mundo nas chegadas
e do corpo nas partidas.

Lisboa, 9 de Janeiro de 2014
Carlos Vieira

Viagens XIII



"Eu sou do Su!", " E eu sou do Norte!", " Eu sou Carlos,
olhos nos olhos, como se faz na minha terra",
os sem terra olhavam-no estupefactos!

Lisboa, 9 de Janeiro de 2014
Carlos Vieira

Viagens XII

Viagens XII

Não partiu inteiro
outro tanto ficou pelo caminho
ao chegar chamaram-lhe emigrante.

Lisboa, 9 de Janeiro de 2014
Carlos Vieira

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Viagens XI



O mercado era à segunda-feira,
na camioneta sem bilhete, cantavam galos e grasnavam patos,
acompanhados do aroma da fruta, da salsa, da hotelã e dos repolhos.

Lisboa, 8 de Janeiro de 2014
Carlos Vieira

Viagens XI




O peregrino repousa
no banco de pedra as alpercatas
sobre a mesa tangerinas.

Lisboa, 8 de Janeiro de 2014
Carlos Vieira

Candelabro






Num quarto pequeno e nu, quatro paredes somente,
recamadas de muito verdes panos,
um belo candelabro brilha incandescente;
e em cada uma das chamas se acende
uma lúbrica paixão, um lúbrico ardor.

Na pequena alcova, que ilumina refulgente
a forte luz que vem do candelabro,
não é vulgar fogo esta luz ardente.
Não foi feita para os corpos tementes
a volúpia que há neste calor.