segunda-feira, 28 de julho de 2014

Dias de bruma I



cai sobre a tua ausência e a terra a chuva impenitente
dos pássaros que cantam indiferentes não identifico nem um
sobrevivo em suspenso do aroma das árvores, flores e frutos 
e na breve abóbada do teu silêncio
enquanto isso desaparecem a estrada, as casas,os rostos, as palavras
como se fosse possível o êxodo desta ilha
apenas a bruma e algures a presença dos abismos
no caos em que por vezes nos cercam os sentidos 
por ti fiquei cego e a tactear pressinto que o vazio 
pode ser uma espécie de morte
contudo resta-me a coragem ou a lucidez 
de saber que algures está pousada a tua mão meu amor
e que por esse caminho de espinhos e emboscadas 
resiste a esperança de passar incólume 
por esse istmo que apela à força da natureza 
ou à frágil subtileza do coração


Santa Rita, 28 de Julho de 2014

Carlos Vieira

sábado, 26 de julho de 2014

Pássaros breves...

Pássaros 
breves
da madrugada
em precário
equilíbrio 
nos fios de telefone
silenciosamente
testemunham
em paralelo
as pausas da saudade
e o acaso
da distância.

Lisboa, 26 de Julho de 2014
Carlos Vieira


sexta-feira, 25 de julho de 2014

Flor do aloés



ergues-te acima 
das espessas línguas 
de clorofila
erecta 
como se fosses
a flor única do aloés
vermelha
e tu és aquele grito
que entra pelas janelas 
adentro
de par em par
abertas às intempéries
e dali 
traças a bissectriz 
doutro espaço 
onde apenas existe
o tempo
de beijar o vento

Lisboa, 25 de Julho de 2014


Carlos Vieira

Debaixo do Pico da Esperança...

Debaixo

do Pico da Esperança
a persistência de um castanheiro
o gato afia as unhas
no seu tronco
depois enrola o seu rabo
nas pernas
e nas histórias
que perduram numa cadeira
com forro azul petróleo
espera pacientemente
no desencontro das estações
que os ouriços
libertem as castanhas
e esgarça as nuvens do Pico
com suas garras
impotente perante o desafio 
do canto dos pássaros
que fazem nesta manhã
o acompanhamento 
da chuva de Verão.

Santa Rita, 25 de Julho de 2014
Carlos Vieira

terça-feira, 22 de julho de 2014

Incomunicável...

incomunicável
sem palavras
sem rede
Santa Rita, São Jorge, 22 de Julho de 2014
Carlos Vieira



domingo, 20 de julho de 2014

O lento caracol



o lento caracol 
sobe a cana
é subtil o rasto
que desenha
no orvalho
e imperceptível
a folha 
que estremece
estandarte
rumor verde
por cima
das translúcidas
amoras
que aguardam
serenas
a clarividência
azeviche
dos melros
e o insaciável
esmalte
dos teus dentes
enquanto
o vagar
dos meus dedos
te enlouquece
depois da noite 
de espinhos
incandescentes
acenderem
teu corpo
tenso de alabastro
isso foi antes
agora
indiferente
ao desejo
que na madrugada
te fustiga
e te esgana
o lento caracol
desliza
sobe a cana.

Lisboa, 20 de Julho de 2014
Carlos Vieira
 



sábado, 19 de julho de 2014

Poema guindaste

 

Ponho o gancho
do guincho
no cume 
e rodo a manivela
ergo o bote
agora grande ave
no horizonte
onde a baleia
acena
a grande barbatana
que salpica
a vista do Pico
ali fico encalhado
em ti
sem vento
no meio do canal
a ensaiar
este guindaste
de palavras
de mudar
o que deve mudar
no mundo.

Lisboa, 19 de Julho de 2014


Carlos Vieira