quinta-feira, 24 de abril de 2014

poema granular


a viagem 
é interrompida
por grão de areia
na engrenagem
e subtil
é a semente 
de pedra
que nos faz tropeçar

como chegaste aqui?
pequeno pedaço de terra
que trazes contigo
o insustentável peso do mundo
foi a tempestade
foi um pássaro de passagem 
ou és estilhaço da guerra

ardil do silêncio
empedernido e inábil
coração de cristal
lágrima esculpida
árido segredo
que o vento 
sopra do deserto

ao micoscópio
inventario-lhe 
as propriedades
redondo 
e um pouco rugoso
grau de resistência: 
elementar
neste laboratório
onde sonho lábios 
e sabores

como é fácil ver
o argueiro 
no olho do outro
e difícil ser cristalino
é ser 
o sal da terra
e suportar 
dentro do sapato
a areia da praia

ínfimo grão a ti 
regresso 
humildemente 
e só te pergunto
qual o caminho?
porque na origem 
e no final
irmãos seremos 
de novo reduzidos 
a pó
grão a grão

Lisboa, 24 de Abril de 2014
Carlos Vieira










quarta-feira, 23 de abril de 2014

Foste ao mercado de bairro

foste 
ao mercado
de bairro
eu fiquei 
à tua espera
aguardo 
o teu aroma de fruta
de coentros
hortelã e salsa
dás-me a tua mão
para descer 
das nuvens
regressar à terra

Lisboa, 23 de Abril de 2014
Carlos Vieira

Soalheira

a tarde de hoje 
estava soalheira
estranha palavra
que desconhecida alquimia
ou oculto rio trouxe até mim
e a pôs na minha boca
a deixou nesta noite
a iluminar o pousio
das minhas mãos
e da poesia

Lisboa, 23 de Abril de 2014
Carlos Vieira

Flores de liberdade



revolução dos cravos, 
das flores
de Abril, de 74
enfim 
de uma manhã de sol
lembro-me 
que a minha mãe
arejava a casa
e fazia a limpeza semanal
embora
goste de considerá-la
uma premonição
ficou-me 
a frequência
e a força da expressão
de um rádio sintonizado
no coração
e a alegria da liberdade 
proclamada
aos sete ventos
frase feita
seja lá o que isso for
para os meus catorze anos
o ser, o querer ser, 
o dever ser 
livre
tinha razão
o que nessa idade
e tempo da ilusão
por livros viajados
fez o mapa do mundo
e o ser humano
duma dimensão
incomensuravelmente maior
do que aquela 
que pudera algumas vez 
sonhar
e é essa amena flor
que interessa regar
é dessa revolução 
tranquila
que estou a falar

Lisboa, 23 de Abril de 2014
Carlos Vieira

Flores de jardim XX



pediu à florista
- " quero flores?"
ela retorquiu
- "que flores? 
para que efeito?
ou "para que enfeito?"
- " não sei! quero
flores verdadeiras!"
desesperada,
a florista insistiu
- " quer um bouquet?
uma coroa? um arranjo?
dois ou três pés"
- " é para uma mulher? 
para alguém que faleceu?"
subitamente,
parecendo acordado
replicou " não!
são para mim! 
talvez, dois três pés!
sobretudo é importante
o seu perfume!
que me faça lembrar,
para quem vivo
e por quem morro!
flores de coragem,
que aguentem!"

Lisboa, 23 de Abril de 2014
Carlos Vieira

terça-feira, 22 de abril de 2014

Flores de jardim XIX



Existe sempre 
em qualquer reino
um jardim proibido
por decreto
para que a donzela
descanse
no seu dossel 
florido
e leia o texto
censurado
uma folha seca
marca a passagem
secreta
onde a donzela 
suspira
e vai esperar
o príncipe
que depois
impotente
se revela.

Lisboa, 22 de Abril de 2014
Carlos Vieira

Flores de jardim XVIII




sobre a roseira o jardineiro curvado
entre rosas e espinhos, a barba e cabelo branco
efémera ilusão de um decadente rei coroado

Lisboa, 22 de Abril de 2014
Carlos Vieira