domingo, 13 de abril de 2014

geografia humana



se tu vivesses
neste fuso horário
se o teu rumo apontasse
este hemisfério
se eu fosse o teu meridiano
tu serias o meu norte magnético
eu iria pelos meus dedos
percorrer a terna geografia 
dos teus altos e baixos 
relevos
acompanhado da baixa
pressão dos teus lábios

Lisboa, 12 de Abril de 2014
Carlos Vieira

Fauna I



a elegância da gazela
só é possível
porque a chita a persegue
na savana
o que resta 
são a sombra dos embondeiros 
no crepúsculo

Lisboa, 12 de Abril de 2014

Carlos Vieira

O curativo

Desenrolou
o rolo de gaze 
pegou na tesoura
e cortou-a 
delicadamente
e meticulosa
colocou-a 
sobre a ferida
depois o adesivo
aconchegou-a
ao corpo
tudo rimava
em dolorosa
serenidade
gestos de amor
silêncios 
e pausas de poesia.

Lisboa, 12 de Abril de 2014
Carlos Vieira

O rebanho de um senhor



Foi ver o gado 
mal rompeu a madrugada
ía pela encosta acima
por veredas e atalhos
procurava os animais
que se escondiam
por entre a neblina matinal
as sebes e os silvados
e o surpreendiam
a encostar-lhe docemente
os cornos
expelir o quente bafo
envolvendo-o
no seu olhar bovino
para quem era deus
sem religião.

Lisboa, 12 de Abril de 2014


Carlos Vieira

o fungo



olho ao microscópico 
os fungos 
que se multiplicam
no terreno fértil
o privilégio 
das condições
na excrescência 
esponjosa
dos parasitas 
em simbiose 
com a fragilidade
cada vez mais exposta
da natureza humana

Lisboa, 12 de Abril de 2014
Carlos Vieira

sábado, 12 de abril de 2014

Depois dos aloendros

Olhas 
os aloendros
desafios
de sabres 
acesos de venenos
e desejos
antes da praia
e de espuma
doce 
é o seu perfume
que me confunde
ou é a maresia
o antídoto
que sacia os teus lábios
ao sabor
da ondulação
bravia
de uma avidez 
de rosa 
e resquícios
de areal
sem conseguir
que o mar se cale
e dele recolher
o até agora
inacessível
segredo
da flor de sal.

Lisboa, 12 de Abril de 2014
Carlos Vieira

Impassível perante o tempo reencontrado

Quando chegavam os primeiros chilreios, pinceladas de acordes, os aromas dispersos e inconsistentes das primeiras flores e cores, o irromper de botões acompanhados do rumor dos insectos, a transparência de clorofila das folhas novas, esses sinais sempre renovados e ancestrais da primavera. Ele pedia ao filho mais velho que, por vezes, o visitava depois do trabalho, para lhe colocar a sua cadeira de balouço, debaixo do carvalho, orientada para a oeste.
Esta árvore tinha várias vezes os seus oitenta anos, ali expostos às ventanias que desciam das montanhas e às agruras das estações, a todas as dores provocadas pelos seus netos, que lhe subiam os troncos, ao facto de nenhum raio a ter incomodado, apesar da sua mais que secular longevidade, permitiu-lhe celebrar a imponência da sua presença e da sua perenidade, vários quilómetros em seu redor.
A meio da tarde, por aquela época do ano, até chegar o Inverno, arrastava-se para aquele seu poiso de observação e levava um velho livro consigo, uma edição antiga, em francês, que outro velho amigo um dia lhe ofereceu e a que depois mandou pôr capas de carneira.
Quando corría uma brisa mais fresca tinha um pequeno cobertor que lhe cobria as pernas e ali permanecia até que chegasse o crepúsculo e a noite apagasse tudo o que vivia à sua volta, já que o livro, as letras e as palavras, já muito que tinham adormecido ao seu colo, após aqueles momentos em que sonhava de olhos abertos ou passava pelas brasas.
A paisagem mais longínqua era dos pinhais, onde o sol se punha e deixava a cúpula das árvores como se fossem os dedos de uma multidão que se manifestava. Embora, para si, aquilo que era mais recorrente, era a última imagem de uma batalha medieval, no momento do primeiro embate. 
Quase ouvia gritos lancinantes de combatentes trespassados por lanças e flechas e relinchos agonizantes dos cavalos, a inquieta elegância de flâmulas e estandartes, a solidão do reflexo das lâminas das espadas, o mergulho da sofreguidão das ordens e dos gritos de incentivo, engolidos nas trevas da noite e pela persistência das mortes e do socorro aos feridos, tudo isto via ou pressentia ao longe, ali tão perto tinha ocorrido a Batalha de Aljubarrota.
Levava umas migalhas no bolso, os pardais claro perceberam que desde início, esse ritual tinha benefícios recíprocos, às aves poupava-lhe algum esforço na busca cada vez mais difícil de alimentação e para o idoso a ilusão, de estar perante aquela aproximação, um pouco menos solitário e da sua diária utilidade.
O que é um facto é que os pássaros passaram a confiar mais na espécie humana, se isso para eles era bom ou mau, era algo que só apenas muitas gerações se poderia perceber. E foi também um facto é que, enquando dormitara lhe presentearam a manga do casaco com uma dejecto nauseabundo, dizem os antigos, sinal de sorte.
Outras vezes embrenhava-se na leitura, mais própriamente releitura, daquele autor francês que desde a morte da sua mulher, lhe fazia companhia, não tanto pela história mas pela confluência das palavras, das sílabas e dos sons, da justaposição da tristeza e da alegria. A cada texto revisitado, a cada ângulo do se estado de alma, reencontrava-se a si próprio, a alegria da sua solidão e a tristeza das amizades esquecidas.
Chegava a altura da melancolia da queda das folhas e do desprender da bolota, à sua volta e sobre os seus chinelos, quase sentia a terra a revolver-se, nesses dias lia pouco, soletrava os factos mínimos da natureza, a acobracia da aranha pendurada da teia, um coelho bravo mais afoito, o artifício luminoso dos pirilampos e o indescritível contraste dourado do carvalho contra o céu.
Finalmente, um dia o filho mais velho regressou do trabalho e perante o silêncio de resposta do se pai, teve pela primeira vez um sobressalto, o seu pai poderia estar morto, o livro caído no chão e as folhas do carvalho quase o cobriam, dado o vento que se tinha levantado, o seu rosto respirava um grande sossego, não deveria ter morrido há muito tempo. Lisboa, 12 de Abril de 2014 Carlos Vieira