sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Investigadores alemães descobrem quatro espécies de camaleões anões em Madagáscar

Investigadores alemães descobrem quatro espécies de camaleões anões em Madagáscar.
(Público)

Em Portugal, nestes novos tempos podem ser descobertos muitos mais e não são do tamanho
de cabeças de fósforos, são de candeeiros de considerável dimensão!



http://ecosfera.publico.pt/noticia.aspx?id=1533903#Commente
Somente o burro velho não aprende línguas!

Investigadores descobrem que cabras têm sotaques diferentes
http://ecosfera.publico.pt/noticia.aspx?id=1534231


Aqui há gato!


Pela manhã, à porta do local onde trabalho, à minha espera, sempre está o mesmo gato listado, de um olho só. Mesmo quando chego muito cedo, o gato cinzento ali está especado apenas num olho, com ares de burguês abandonado, a quem só falta o monóculo. Fita-me como quem diz “eu estou-te a ver” ou parece dizer “eu quero que me vejas”.

Chego aí pelas oito horas, o gato mia, como quem diz, “bom dia!”. O que é certo, é que a manhã fica mais quente. Por fim, chego ao trabalho onde mia o tal gato afoito, burocrata, conhecedor dos meandros e das rotinas. Nunca chega tarde e não faz mais nada, ali está sentado, parece dizer, “eu te saúdo, tu que vais trabalhar” ou “eu te vigio, pobre escravo”.

Durante o dia, ali fica o bicho com seu olho único, esquálido, de unhas de fome, fazendo contas silenciosas, de uma matemática ágil e imperturbável. Cofia o bigode e podia distender a cauda inúmeras vezes durante o dia, como quem deixa subentendido, não haver qualquer preocupação relevante.

Posso afirmar que era um gato elegante, para além da distinção que todos os gatos parecem transportar. Era displicente ou mais precisamente era na aparência displicente, pois apanhei-o fortuitamente encenando poses.

Lançava-me da sua altivez olhares de compaixão, perante a minha a minha humana fadiga, à tarde depois do trabalho, ia-me embora, nas minhas costas sentia o seu olho de gato cravado e seu o rabo acenava um “adeus” relaxado, parecendo dizer, “por hoje, cumpriste o teu dever”.

Um destes dias, quando cheguei ao trabalho fiquei perdido. O gato não apareceu, faltava ali aquele vulto, aquele aristocrático bom dia. Uma tristeza invadiu-me todo o dia. É verdade que há algumas coisas que só damos valor, quando lhe sentimos a falta.

No entanto nunca lhe tinha dirigido palavra, após vinte anos de casa tinham despedido “o gato”, não tinha grande margem de progressão e era imperativo que se cortassem nas “gorduras”.

Agora o olho único de uma câmara de vídeo vigilância e a sua discrição eficiente era mais do que suficiente e a sua simpatia automática do “sorria, está a ser filmado”, reservava-nos a eternidade virtual.

 Lisboa, 16 de Fevereiro de 2012

 Carlos Vieira




terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Terra à terra


Há dias em que dentro de nós há sementes de fúria
vamos pela noite fora e faíscam lâminas de charrua
a esventrar a terra do eterno descanso

há dias em que mordemos de raiva a côdea da terra
e irrompendo pelos caminhos das trevas
somos a incansável perícia do trigo

há dias de tropeçar nos torrões a agonizar nas planícies
do estrangulado desespero de raízes
de pressentir a minha sombra debaixo da terra

há dias que recordo o cheiro intenso depois das chuvas
e do vapor que se libertava das entranhas da terra
agora só a memória me deixa respirar

há dias em que dormimos abraçados eu e a terra
há dias que parecem noites em que não durmo
depois vou acordar já morto nos teus braços

Lisboa, 14 de Fevereiro de 2012

Carlos Vieira





                                               “Who am I” pintura de  Maximilian Toth