segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Light breaks where no sun shines - Dylan Thomas


A luz rompe onde o sol não brilha;
Onde o mar não corre, as águas do coração
Avançam suas marés;
E, quebrados espectros com pirilampos nas cabeças.
As coisas da luz
Insinuam-se na carne onde carne não cobre os ossos.

Um círio entre as pernas
Aquece a juventude e o sémen e queima o sémen da idade;
Onde sémen se não agita,
O fruto do homem incha nas estrelas,
Brilhante como um figo;
Onde cera não há, o círio mostra os seus cabelos.

A alvorada rompe atrás dos olhos;
De mastros do crânio e dedos dos pés o soprante sangue
Desliza como um mar;
Sem muros nem estacadas, os borbotões do céu
Esguicham para a vara do vedor
Num sorriso o óleo das lágrimas.

A noite nas órbitas arredondada,
Como uma luz de paz, o limite dos globos;
O dia acende o osso;
Onde frio não há, as ventanias desprendem
As vestes do Inverno;
A película da Primavera pende nas pálpebras.

A luz rompe em lotes secretos,
Em pontas do pensar onde os pensamentos cheiram mal na chuva;
Quando a lógica morre,
O segredo do solo cresce pelos olhos dentro,
E o sangue salta ao sol;
Por sobre os terrenos vagos a alvorada pára.
...
Light breaks where no sun shines;
Where no sea runs, the waters of the heart
Push in their tides;
And, broken ghosts with glow-worms in their heads,
The things of light
File through the flesh where no flesh decks the bones.
A candle in the thighs
Warms youth and seed and burns the seeds of age;
Where no seed stirs,
The fruit of man unwrinkles in the stars,
Bright as a fig;
Where no wax is, the candle shows its hairs.
Dawn breaks behind the eyes;
From poles of skull and toe the windy blood
Slides like a sea;
Nor fenced, nor staked, the gushers of the sky
Spout to the rod
Divining in a smile the oil of tears.
Night in the sockets rounds,
Like some pitch moon, the limit of the globes;
Day lights the bone;
Where no cold is, the skinning gales unpin
The winter’s robes;
The film of spring is hanging from the lids.
Light breaks on secret lots,
On tips of thought where thoughts smell in the rain;
When logics die,
The secret of the soil grows through the eye,
And blood jumps in the sun;
Above the waste allotments the dawn halts.

Dylan Thomas (1914 - 1953)   
tradução: Jorge de Sena

Philippe Jaroussky - Sì dolce è il tormento

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Night Bird - Mad World

A besta




A besta
está de pé sobre o prado
e um sonho espezinhado
baixa os cornos
e nós somos o sonho
a besta cega
que cá dentro
se baixa
ou investe
por todo o lado.

Lisboa, 12 de Fevereiro de 2012
João Carreira

“Reflecting the beast”  Lee Zimmerman



John Sargents's Madame X

Excerto do conto Eleonora, de Edgar Allan Poe

"Os homens chamaram-me louco; mas ainda não está assente se a loucura é ou não a mais elevada das inteligências, se quase tudo o que é glória, se tudo o que é profundidade, não provém de uma doença do pensamento, de um modo de ser do espírito à custa do intelecto geral. Os que sonham de dia têm conhecimento de muitas coisas que escapam aos que só sonham de noite. Nas suas visões brumosas, captam foragidos da eternidade e estremecem, ao despertar, por verem que estiveram à beira do segredo. Captam pedaços de algo do conhecimento do Bem, a ainda mais da ciência do Mal. Sem leme e sem bússola, penetram no vasto oceano de luz inefável, como se para imitar os aventureiros do geógrafo núbio, agressi sunt Mare Tenebrarum, quid in eo esset exploraturi. Diremos, por conseguinte, que sou louco. Reconheço, pelo menos, que há duas condições distintas na minha existência espiritual: a condição de razão incontestavelmente lúcida, e a condição de sombra e de dúvida."

A Estultícia

"Da mesma farinha são os escritores que correm atrás da fama imortal publicando livros. Todos me devem muito, principalmente aqueles que sujam o papel com meras bagatelas. Quanto àqueles que escrevem eruditamente para serem julgados pela minoria dos doutos, que não recusam o juízo de Pérsio ou Lélio, parecem-me mais míseros do que beatos, porque perpetuamente se torturam. Acrescentam, mudam, suprimem, repõem, repetem, refazem, insistem, guardam o manuscrito durante nove anos, e nem assim ficam satisfeitos; o louvor, fútil prémio, e que só poucos recebem, é comprado por vigílias, por suores e por tormentos, quando o sono é a coisa mais doce. Acrescentemos o dispêndio de saúde, a perca da formosura, o cansaço da vista e até a cegueira, a pobreza, a inveja, a abstinência de volúpia, a precoce senectude, a morte prematura, e outras tantas misérias. Com tantos males obtém o sapiente apenas a aprovação de um ou outro semelhante. Ao passo que o meu escritor, delirante de felicidade e sem dura lucubração, deixa passar pelo cálamo tudo quanto vai sendo visto pela alma, dorme e transcreve os sonhos, consome apenas o papel, e não desconhece que quanto mais fúteis forem as suas futilidades tanto mais será aplaudido pela maioria, isto é, por todos os estultos e indoutos. Que lhe importa a reprovação de dois ou três doutos que porventura o leiam? De que valeria a opinião de tão poucos sapientes perante a turba imensa dos que o aplaudem? ...

Erasmo de Roterdão, em Elogio da Loucura